3ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 57 ª LEGISLATURA
Comissão de Saúde
(Seminário - Da boca ao pulmão: câncer de cabeça e pescoço (semipresencial))
Em 8 de Julho de 2025 (Terça-Feira)
às 16 horas
Horário (Transcrição preliminar para consulta, anterior às Notas Taquigráficas.)
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A SRA. PRESIDENTE (Silvia Cristina. Bloco/PP - RO) - Boa tarde a todos.
É com grande satisfação que damos início ao seminário Da boca ao pulmão: câncer de cabeça e pescoço, uma iniciativa da Subcomissão Especial de Prevenção e Controle do Câncer, conforme o Requerimento nº 146, de 2025, da Comissão de Saúde.
Este evento será transmitido ao vivo pelo canal da Câmara dos Deputados no YouTube e pela página da Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados na Internet.
Gostaríamos de ressaltar que o câncer de cabeça e pescoço é o quarto tipo que mais mata, com a previsão de que, a cada ano, mais de 40 mil pessoas enfrentem essa doença.
Quero prestar uma homenagem muito carinhosa à nossa amiga Melissa. Saiba que há muitos que gritam, mas você dá voz a muita gente. Nosso respeito, em meu nome e em nome do nosso querido Vice-Presidente da Subcomissão, o Deputado Geraldo Resende; do nosso Presidente da Comissão de Saúde, Zé Vitor; e da Deputado Flávia Morais, que hoje não está presente, mas também participou conosco deste requerimento.
A gente tem gratidão pelo seu trabalho, de toda a sua equipe e das pessoas que estão unidas para que, cada vez mais, políticas públicas possam, de fato, acontecer. É por meio de políticas públicas que podemos, sim, salvar vidas, diagnosticar precocemente e, se por acaso a doença for diagnosticada, garantir que o tratamento seja mais rápido, menos doloroso e com a certeza de uma vida plena.
Convido para compor a Mesa a Sra. Melissa Medeiros, fundadora e Presidente da Associação Brasileira de Câncer de Cabeça e Pescoço. Por favor, venha sentar conosco. Muito obrigada pela sua presença. (Palmas.)
Convido também a Sra. Katia Marchetti, oncologista do Hospital Sírio-Libanês de Brasília e membro da Comissão Científica da Associação de Câncer de Cabeça e Pescoço do Brasil; o Sr. Gabriel Marmentini, doutor em administração, que estava ali ao lado da nossa querida Presidente. Aqui está o seu lugar. Muito obrigada.
Também participarão virtualmente, aos quais já agradeço: o Sr. Rogério Dedivitis, cirurgião de cabeça e pescoço do Hospital de Clínicas de São Paulo e membro do Comitê Científico do Brasil; o Sr.Sr. Rogério Gondak, patologista oral e pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina, também membro do Comitê Científico; a Sra. Elisabeth Carrara, doutora em fonoaudiologia do A.C. Camargo Cancer Center e membro do Comitê Científico; o Sr. Marco Santos, biólogo e pesquisador do A.C. Camargo Câncer Center.
Aos expositores, informo que cada um terá 10 minutos para sua apresentação. Aos presentes, informo que as eventuais perguntas aos expositores poderão ser entregues por escrito à equipe da subcomissão para serem respondidas ao final das apresentações.
Agora, nosso Vice-Presidente, o querido Deputado Geraldo Resende, assumirá a Presidência. Ele dará as boas-vindas e, em seguida, a passará à nossa querida Melissa.
Quero dizer que, em Rondônia, Melissa, inciamos há 4 anos a prevenção do câncer de boca. No começo, tivemos muitas dificuldades, já que as pessoas se atentavam mais ao câncer de mama e ao câncer de colo do útero. Tivemos um grande desafio para conscientizar as pessoas, especialmente sobre o trabalho que a gente desenvolve no combate ao câncer de boca. Mas, graças a Deus, hoje, com uma unidade móvel que está percorrendo as cidades mais distantes, estamos conseguido resultados expressivos, infelizmente com diagnósticos, mas conseguindo, de fato, chegar a quem precisa.
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É um trabalho de formiguinha, insistente, para que possamos fazer com que a prevenção e o diagnóstico precoce cheguem para trazer uma vida plena a essas pessoas. E saiba que esse trabalho só existiu porque você me inspirou. Por isso, muito obrigada pelo seu trabalho.
Há quase 5 anos a gente está em Ji-Paraná e há pouco mais de um ano, de forma mais incisiva, no Cone Sul de Mato Grosso, em Vilhena, fazendo esse trabalho maravilhoso com a nossa unidade móvel. Ela é pequenininha, é um micro-ônibus, mas faz um trabalho gigante de prevenção do câncer de boca. Você foi a "culpada" disso — a culpada no bom sentido —, a responsável por inspirar tantas pessoas no Brasil todo.
Que Deus te abençoe cada vez mais!
Muito obrigada. Com a palavra, o Deputado Geraldo Resende, Vice-Presidente da Subcomissão do Câncer.
O SR. GERALDO RESENDE (Bloco/PSDB - MS) - Quero agradecer à Deputada Silvia, que é uma referência aqui na Casa nessa temática. Ela tem colocado toda a sua energia não só para fazer essas discussões aqui, mas também para construir uma alternativa de uma saúde de melhor lá em Rondônia, principalmente focada na questão da oncologia.
Parabéns à Deputada!
Passo a palavra imediatamente à Sra. Melissa Medeiros, para discorrer sobre a instituição do mês de julho para ações de combate ao câncer de cabeça e pescoço no Brasil e o andamento da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer — PNPCC.
Sra. Melissa Medeiros, conforme já anunciado pela Deputada Silvia Cristina, terá 10 minutos para sua apresentação.
A SRA. MELISSA MEDEIROS - Boa tarde a todos.
Quero agradecer a presença de vocês, em especial à minha querida Deputada Silvia Cristina, que com certeza vem apoiando muito o trabalho em políticas públicas que a Associação Brasileira de Câncer de Cabeça e Pescoço vem desenvolvendo.
(Segue-se exibição de imagens.)
Para quem ainda não me conhece, sou sobrevivente de um câncer de laringe. Por isso, esta voz, que chamo de sexy, é uma voz possível, uma alternativa para quem perdeu a sua para o câncer. A ACBG Brasil nasceu de uma dor familiar, mas, em 10 anos, essa dor se tornou, como a Deputada disse, a de muitas famílias que estavam invisibilizadas no sistema de saúde.
Apesar de ser um dado estatístico muito triste, 40 mil pessoas são diagnosticadas por ano, e, parcialmente, ficam com sequelas, como eu. Nossa missão é bem simples: ser protagonista do que vivemos, dando voz a este problema, luz à nossa vivência e trabalhando sempre em uma tríade que envolve profissionais de saúde, pacientes e os tomadores de decisão.
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A gente precisa, Deputada, dialogar cada vez mais entre esses três entes: quem tem a doença, quem a trata e quem tem a responsabilidade do Estado em suprir a saúde da população.
A gente trabalha basicamente em três eixos, sendo a Advocacia o principal deles. A tradução desse termo inglês é simples: dar voz a uma causa e defender direitos, algo que fazemos muito bem há 10 anos. A cada ano, precisamos engrossar o time de aliados — Deputados, gestores, executivos, profissionais da saúde — porque nosso desejo é, única e simplesmente, conseguir diagnósticos mais rápidos, tratamentos mais adequados com tecnologias que possam, de fato, melhorar o prognóstico. Obviamente, buscamos viabilizar a reintegração desse paciente na sociedade em condições minimamente dignas. Este é o grande trabalho da ACBG Brasil.
A gente está completando 10 anos, e não foi nada fácil. Acredito que vocês possam, por um minuto, se colocar no meu lugar e no de outros colegas que estão aqui: como é ficar sem voz, como é não poder falar o que você pensa, o que você precisa, o que você sente. É dificílimo. E é tão difícil que isso doeu profundamente em mim e na minha família.
Entendi que, apesar de meu sofrimento com a perda da voz, existiam possibilidades de reabilitação que não estavam disponíveis na saúde pública. Essa é a parte que te motiva, te impulsiona e, ao mesmo tempo, te indigna. É isso que te faz movimentar, pois de nada adianta apenas reclamar.
A ACBG Brasil, portanto, dá voz a quem não tem e é os olhos e ouvidos de outros. Meu amigo Herbert, nosso voluntário do TF, é um exemplo. Ele teve um caso de estadiamento avançado, perdeu uma das órbitas oculares devido a uma cirurgia inadequada e uma reabilitação insuficiente. Ele faz parte, assim como eu, Jeziel e Arimatéa, da estatística dos sequelados por câncer de cabeça e pescoço.
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Isso é muito triste. Só aqui nesta sala, quatro pessoas que estavam em franca ascensão profissional — de vida, de sonhos, de família, de dinheiro, de trabalho. Mas nós vencemos, amigos! E nós estamos trabalhando para que outros não passem por isso.
A Doralice está aqui, que é uma grande trabalhadora do SUS há anos. Muito me orgulho de ter conhecido você, Dora. Dora foi coordenadora de saúde bucal nessa última gestão. Ela fez com que a saúde bucal, o câncer bucal e as lesões iniciais saíssem do anonimato. Quinze mil pessoas têm câncer de cavidade oral por ano. Você já imaginou você não tem o céu da boca, não tem a língua, não come, não fala, não bebe... E você passa a fazer parte da estatística do SUS de câncer em cabeça e pescoço. Então, é sobre isso. Esta audiência é sobre a urgência de se tratar o paciente de câncer de cabeça e pescoço com a devida urgência que o assunto merece.
Dentro desses 10 anos, a gente conseguiu eleger dez propósitos que fundaram e são os nossos alicerces. Reabilitação oncológica é a principal delas porque, como eu disse, para o cirurgião e para o oncologista, livrar a gente do câncer é a prioridade deles. Mas a nossa prioridade é voltar para o convívio social da forma mais plena possível.
Então, sim, “reabilitação” foi uma palavra que nós colocamos no mapa da oncologia e foi a Deputada Silvia que nos ajudou nesse processo, porque a política nacional do câncer só tem esse capítulo hoje porque a gente vem, há 8 anos, a esta Casa pedir por isso.
O trabalho é longo, às vezes muito frustrante, muito solitário, mas cada conquista nos mostra que estamos no caminho certo.
Reabilitação, transformação de políticas públicas, controle social... A ACBG Brasil é conselheira nacional de saúde, conselheira consultiva do INCA. Estamos trabalhando a política de navegação do paciente oncológico para evitar que pessoas como eu se percam no sistema e, com isso, percam o tempo oportuno da melhor cirurgia e da melhor reabilitação no momento certo.
A gente trabalha em rede. Temos uma rede de 54 voluntários no Brasil, são voluntários formalizados, com atividade, campo de atuação e equipe. Com isso, conseguimos capilarizar o nosso impacto. Trabalhamos para estar em lugares como este, para que sejamos ouvidos, para que as nossas pautas sejam atendidas.
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E, falando sobre pautas, queremos muito que audiências públicas como esta reverberem mais em todas as cidades, porque, se em cada canto houver uma voz sem ser ouvida, não haverá justiça social, e é para isso que trabalhamos. Todas as pessoas têm que ter acesso ao tratamento e fortalecer suas identidades.
Quem imaginaria que uma pessoa como eu, sem voz, viria ao Congresso Nacional há 10 anos para falar numa sessão solene, lá no tapete azul... tapete vermelho, nem me lembro mais. Fui aos dois: ao Senado e à Câmara. Os Deputados ficaram perplexos, olhando e pensando: "Meu Deus, o que é isso?". Quando a saliva falhou na hora da fala, eles ficaram ainda mais constrangidos. Eu disse: "Pois é, pessoal, esta é a minha voz. Precisa de técnica, precisa de articulação, mas não vou me calar, porque não ando só".
É por isso que hoje trabalhamos cada vez mais para apoiar todo paciente, todo portador, desenvolvendo a educação para promoção e prevenção. Vocês já sabem que o cigarro eletrônico é a nova batalha contra o câncer de cabeça e pescoço. A gente conseguiu trabalhar arduamente no controle do tabaco, e a indústria mudou. Mudou a apresentação do mesmo vício: é eletrônico, é cheirosinho, está na moda, mas está deixando jovens de 20 anos sem língua, sem amígdala, sem boca. Vinte anos de idade! Quando o câncer de cabeça e pescoço é tipicamente um câncer dos 60 anos para cima.
Para encerrar: sim, 10 anos de trabalho nos trouxeram algumas legitimidades, e uma delas foi o prêmio da ONU por ocasião da Covid-19. Uma de nós, a única associação que trata do tema no Brasil com exclusividade, trabalhou pela Covid-19, pelos traqueostomizados que, como eu, não podem usar uma simples máscara,porque, se eu tirar este botão aqui no meu pescoço... Para quem não sabe, este botão é o meu pulmão. Só respiro por este botãozinho de liga e desliga. Imaginem meu pequeno orifício aberto durante a Covid-19, Deputado. Quantas pessoas como eu o senhor acredita que morreram? Muitas. Porque o orifício e o pulmão estão ali, muito próximos.
E o senhor acredita que, em 10 anos de associação, estou com a mesma pauta parada no Ministério da Saúde, exigindo que toda pessoa como eu tenha direito ao que estou usando? Antes que alguém pergunte, respondo por que estou usando isso e alguns não estão: porque meu Estado, Santa Catarina, trabalhou conosco na criação de uma política estadual de assistência a pessoas laringectomizadas e traqueostomizadas. Isso está previsto em lei, Deputado. Mas o que os Estados fazem? Jogam a culpa na União: "Ah, se a União não tem o protocolo ainda, eu também não preciso fazer". A gente sabe que isso é uma mentira, porque o Estado tem que dar culpa.
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Então, para encerrar minha fala, já agradecendo, porque eu sei que, a partir de hoje, o senhor vai ser mais um aliado nosso nessa busca pelo direito a respirar, a viver. Depois de tudo que nós passamos, não é justo morrer de pneumonia.
Obrigada. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Geraldo Resende. Bloco/PSDB - MS) - Eu agradeço à Sra. Melissa Medeiros por suas contribuições.
Gostaria de informar que já estou engajado na luta para dar visibilidade às pessoas com deficiência e para garantir a elas acesso pleno a todos os recursos necessários, a fim de que possam exercer sua cidadania em sua plenitude.
Acredito que seria relevante nos inspirarmos na iniciativa do Estado de Santa Catarina. Nesta Comissão, recebemos a Prefeita de Jales, Carmen Zanotto, e ela nos ajudou a elaborar uma pauta muito produtiva sobre esse assunto.
Pessoalmente, dedico-me à causa do terceiro setor, que abrange todas as deficiências. Estamos investindo toda a nossa energia para que este mandato se destaque dos anteriores, que tinham outras prioridades. A causa das pessoas com deficiência é a minha principal bandeira, e sou um dos primeiros a me engajar nela.
Esta secretária participou de um momento muito especial e gratificante: a inauguração da melhor estrutura para o atendimento de pessoas com transtorno do espectro autista em Dourados, no Mato Grosso do Sul. Ela representou a Comissão nesse evento. É assim que agimos: com ações concretas e não apenas com discursos.. Materializamos nosso compromisso com essa causa por meio das entregas que fazemos diariamente.
Agora, passo a palavra ao Sr. Rogério Dedivitis, que nos acompanha virtualmente, para que discorra sobre a casuística dos tumores em cabeça e pescoço.
Sr. Rogério, V.Sa. tem até 10 minutos.
O SR. ROGÉRIO APARECIDO DEDIVITIS - Muito boa tarde.
(Segue-se exibição de imagens.)
Inicialmente, agradeço a hospitalidade dos Deputados Geraldo Resende e Silvia Regina. Quero também congratular, de público, a Sra. Melissa Medeiros, que, com tanto dinamismo, realiza um trabalho realmente maravilhoso e muito significativo à frente da ACBG.
É uma alegria muito grande, já no 11º ano desde a criação do Julho Verde, feito em 2015 pela Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, e que, a cada ano, consegue agregar mais pessoas nessa luta, fazendo a prevenção e o diagnóstico precoce dessa doença tão frequente.
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A importância se dá justamente pela alta incidência que o câncer de cabeça e pescoço tem em nosso meio. Como já dito, nós temos uma estimativa anual para o triênio 2023-2025 de 40 mil novos casos por ano. Veja que, no sexo masculino, a próstata responde por 30% dos tumores; porém, a boca aparece com 4,6% e a laringe com 2,7%.
Entre as mulheres, a mama é preponderante, também em torno de 30%, mas a tireoide já surge com quase 6% dos cânceres no nosso País. Então, toda ação que vise uma atenção aos nossos pacientes é muitíssimo bem-vinda.
Há aqui gráficos demonstrando a incidência desses cânceres tão frequentes entre as mulheres, como o de tireoide. Na Região Sudeste, essa taxa de 11% faz com que a tireoide já seja o terceiro câncer mais comum entre as mulheres, e a cavidade oral é preponderante no sexo masculino em várias regiões do Brasil.
Considerando o câncer de cabeça e pescoço como um todo — o que inclui a mucosa da boca, da faringe e da laringe —, temos alguns pacientes que são grupos de risco e que merecem atenção especial, sobretudo homens acima dos 40 anos.
Aqui está, na sequência, o grande vilão: o uso do cigarro. Ele é o principal fator causal do câncer de cabeça e pescoço, estando presente em 95% dos casos como fator de risco e agente causal importante. Quando associado ao uso abusivo de bebidas alcoólicas, há uma potencialização do efeito carcinogênico. Existem outros fatores, mas o cigarro é, sem dúvida, o mais importante.
É importante delimitar a nossa área de ação, pois muitas pessoas leigas ainda consideram que, ao falar em cirurgia de cabeça e pescoço, estamos tratando de neurocirurgia. No entanto, a neurocirurgia é uma especialidade diferente, que não tem relação direta com a nossa atuação.
Nossa área inclui, por exemplo, o câncer de pele, comum em pessoas de pele clara, especialmente em regiões com exposição solar intensa e em áreas do corpo mais expostas, como a face e os antebraços. O tratamento é basicamente cirúrgico, muitas vezes realizado sob anestesia local em lesões pequenas, com altos índices de cura.
Outro exemplo é o tumor de lábio inferior.
Quando voltamos para a mucosa — considerando o câncer de boca e de garganta —, alguns fatores de risco devem chamar atenção.
Na boca: próteses mal adaptadas, feridas que não cicatrizam em 2 a 3 semanas, geralmente indolores, e a presença de ínguas no pescoço, do mesmo lado da lesão, que não regridem nesse período.
Na garganta: rouquidão, dor ou dificuldade para engolir, persistindo por mais de 2 a 3 semanas sem melhora, também são sinais de alerta, assim como ínguas no pescoço.
Na orofaringe, que inclui a amígdala, a base da língua e o palato mole, o HPV, o vírus do papiloma humano, tem sido bastante relacionado, nos últimos anos, a casos da doença.
Aqui temos, por exemplo, um câncer de língua, que é o sítio mais frequente de cânceres na boca.
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Aqui, um exemplo: exames da laringe e das cordas vocais. Apenas para contrastar, à esquerda nós temos as cordas vocais com pequenos nódulos ou calos. A principal causa do absenteísmo de professores na rede pública é o câncer vocal, que provoca a formação de calos e uma rouquidão que, muitas vezes, dificulta a atividade docente.
Dentro da nossa campanha, temos aqui um câncer na prega vocal esquerda — essa lesão branca bem na prega vocal.
Outros tumores que nos interessam: tumores de glândulas salivares. Aqui nós temos dois exemplos de tumores da glândula parótida, do lado direito. São tumores que também acometem essa região.
E, finalmente, a tireoide. Aqui, exemplos de pacientes com doença nodular da tireoide, dos dois lados: uma senhora e um senhor. Lembrando que aproximadamente 5% dos nódulos da tireoide serão cânceres.
Quando falamos da glândula tireoide, o hipotireoidismo — tireoide preguiçosa — é uma situação bastante frequente, especialmente entre mulheres após os 40 anos. Nessa mesma faixa etária, se investigarmos por métodos de imagem, em até 50% da população encontraremos a presença de nódulos. O câncer da tireoide hoje representa 1% de todos os cânceres. O tratamento é, geralmente, cirúrgico, e o índice de cura está na casa dos 98%.
Um dos métodos mais utilizados é a punção aspirativa por agulha fina, guiada por ultrassom, que permite avaliar com precisão os nódulos e, a partir daí, definir pela realização de cirurgia, acompanhamento ou testes genéticos.
Não vou me deter nesse tema, já que teremos uma apresentação específica sobre ele.
Para finalizar, é muito importante ter em mente a necessidade da prevenção primária, que deve ser uma ação ostensiva por meio de campanhas contra o fumo, esclarecimento de que as bebidas alcoólicas devem ser consumidas com moderação e proteção da pele em relação à luz solar, já que o câncer de pele na face, incluindo a região dos lábios, é muito frequente.
Acrescento ainda a vacinação contra o vírus HPV: meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos, lembrando que é uma vacina disponível pelo SUS.
Então, o câncer de orofaringe, em toda essa região em que atuamos, é o que recentemente apresentou maior aumento de incidência, e há expectativa de que a vacinação possa reverter esse cenário.
Obviamente, também é fundamental a prevenção secundária, por meio do rastreamento e da busca ativa entre os grupos de risco, visando ao diagnóstico precoce, que garante altas taxas de cura, tratamentos menos onerosos e retorno do paciente à vida social e laboral.
Agradeço imensamente a atenção de todos.
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O SR. PRESIDENTE (Thiago de Joaldo. Bloco/PP - SE) - Agradeço ao Sr. Rogério Dedivites por suas contribuições. Parabéns e obrigado pelas informações trazidas hoje.
Passo a palavra ao Sr. Rogério Gondak, que também nos acompanha virtualmente, para discorrer sobre diagnóstico precoce de câncer em cavidade oral.
O SR. ROGÉRIO DE OLIVEIRA GONDAK - Boa tarde.
É uma satisfação. É com grande apreço que agradeço a iniciativa das entidades envolvidas na organização deste evento, em especial à ACBG, por abordar um tema tão relevante para a nossa sociedade: o câncer de cabeça e pescoço.
Atuo como docente e pesquisador na Universidade Federal de Santa Catarina, com foco principal no diagnóstico de lesões orais em pacientes da capital e do interior do Estado.
O objetivo principal da minha apresentação é o diagnóstico precoce do câncer de cavidade oral.
Declaro não ter conflito de interesse em relação ao conteúdo que será apresentado.
A Cavidade Oral e o Câncer.
Ao falarmos da cavidade oral, é importante lembrar que ela desempenha funções essenciais, como mastigação, deglutição e fala. É composta por diversas estruturas: lábio superior e inferior, assoalho bucal, língua, gengiva, dentes, mucosa da bochecha, mucosa jugal e o palato duro — o céu da boca.
Um estudo de 2023, que analisou dados de um banco público dos Estados Unidos entre 2001 e 2017, ao longo de 16 anos, avaliou mais de 200 mil pacientes. Os resultados corroboram estudos nacionais, mostrando que as áreas mais afetadas são a língua, principalmente a região lateral, e o assoalho bucal. O lábio também é um local importante para rastreamento devido à exposição solar. O estudo reforça que o câncer de cavidade oral afeta mais homens — cerca de 62% —, e sua incidência continua a crescer nos Estados Unidos, no Brasil e no mundo.
Incidência e Mortalidade no Brasil de cavidade oral
Dados de 2022 da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer revelam que o Brasil ocupa o sétimo lugar no mundo em número de casos de câncer de cavidade oral e o topo entre os países do continente americano com maior incidência. A estimativa para o triênio 2023-2025 é de mais de 15 mil novos casos por ano no País, um dado bastante relevante.
O panorama da mortalidade é ainda mais grave, colocando o Brasil no topo entre os países americanos. Em nações com alto Índice de Desenvolvimento Humano, a mortalidade por câncer é combatida por meio de ações eficazes de prevenção, detecção precoce e tratamento. Em contrapartida, em países em desenvolvimento, como o Brasil, essas taxas se mantêm estáveis ou em ascensão. O desafio, portanto, dos países de baixo e médio desenvolvimento é otimizar o uso de recursos e esforços para um controle mais efetivo da doença.
Como bem dito pelo Dr. Rogério Dedivitis, o consumo de tabaco e álcool realmente são fatores de risco extremamente relevantes para o desenvolvimento do câncer bucal.
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Quando a gente fala ao tabaco, isso inclui qualquer forma de consumo, como charuto, cachimbo, narguilé e cigarros eletrônicos. Há uma série de substâncias que têm potencial de causar sinogênese, e o consumo desse tipo de álcool também, pelo próprio efeito sinérgico, pode contribuir para elevar o risco em mais de 35 vezes.
Ressaltamos também a importância, como já colocado, do HPV, principalmente dos tipos 16 e 18, em regiões de orofaringe. A exposição crônica ao sol tem relevância maior, especialmente em casos de câncer de lábio.
Além de outros fatores, lembramos que o câncer é multifatorial: o avanço da idade e as condições nutricionais favorecem o desenvolvimento da doença.
Quando falamos de diagnóstico precoce, especialmente em câncer de cavidade oral, é fundamental identificar os principais sinais e sintomas. Em geral, o cirurgião-dentista, que é o profissional com mais acesso à cavidade oral, tem plenas condições de identificar achados importantes, como dores persistentes em cavidade oral, face, ulcerações ou feridas que não cicatrizam por período superior a 12 dias, lesões avermelhadas ou placas esbranquiçadas, nódulos no pescoço de persistência prolongada, dificuldade mastigatória, deglutição, fonação e assimetria facial — sintomas que alguns pacientes apresentam, principalmente em estágios mais avançados.
Um estudo finlandês, que envolveu mais de quinhentos pacientes com diagnóstico de câncer de cavidade oral, mostrou que cerca de 10% dos atrasos no encaminhamento para tratamento ocorreram pela falta de reconhecimento dos principais achados clínicos por profissionais da saúde, incluindo médicos e dentistas. Pior: em alguns casos, os pacientes foram submetidos a tratamentos inadequados, como antibioticoterapia, uso de anti-inflamatórios, relaxantes musculares e até extrações dentárias.
No caso da cavidade oral, o acesso anatômico favorece a inspeção visual e a detecção precoce de lesões, principalmente as avermelhadas e esbranquiçadas, que em geral são precursoras do câncer bucal. Elas são definidas pela OMS como desordens potencialmente malignas. Nessas imagens, podemos observar leucoplasias — placas esbranquiçadas na região lateral da língua. Algumas lesões apresentam coloração mais avermelhada, eritroplasias, e outras têm aspecto misto, eritroleucoplasias.
Nosso objetivo é detectar e tratar precocemente, evitando que o paciente receba um diagnóstico tardio, como nos casos apresentados: paciente de 59 anos, à esquerda, e outro de 68 anos, ambos com câncer em estágio avançado, comprometendo grande parte da cavidade oral, linfonodos, pele e até sítios à distância. Além do prognóstico mais sombrio, esses pacientes necessitam de tratamentos mais complexos, que geram maiores custos ao Sistema Único de Saúde.
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Então, o diagnóstico inicial do câncer bucal depende de um exame clínico detalhado, engloba uma entrevista detalhada para identificação de doenças de base, antecedentes familiares e fatores de risco para o câncer, além de inspeção e palpação cuidadosa, não apenas na cavidade oral, mas também no pescoço, com avaliação de linfonodos cervicais. Se necessário, devem ser solicitados exames complementares.
Quando se fala em câncer de cavidade oral, o padrão-ouro ainda é a biópsia com análise anatomopatológica. Trata-se de um procedimento baseado na coleta de um fragmento da lesão, que é encaminhado ao laboratório de anatomia patológica para emissão de laudo, confirmando ou não o diagnóstico de câncer.
Existem casos em que é necessária a solicitação de exames de imagem, como tomografia, ou exames mais detalhados, como Pet-Scan, para avaliar a extensão da lesão, o acometimento do tecido ósseo ou a presença de metástases em órgãos distantes do sítio primário.
Dentro do contexto de diagnóstico precoce do câncer de cavidade oral, é fundamental o fortalecimento da infraestrutura de saúde que favoreça o rastreamento, bem como o acesso do paciente ao serviço. É recomendado que os protocolos de regulação dos casos sejam bem definidos e que haja financiamento das ações de investigação desde a atenção primária, além de mecanismos que favoreçam o monitoramento de pacientes que apresentem fatores de risco para o câncer de boca.
Finalizando, reforço que a atenção e a informação ainda são as maiores armas no combate ao câncer. A promoção de atividades de prevenção e o aprimoramento profissional na área da saúde são fundamentais nessa cadeia, assim como o acesso do paciente ao cirurgião-dentista — profissional que, muitas vezes, é o primeiro a inspecionar a cavidade oral. Ressalto também a necessidade de um fluxo adequado para o encaminhamento dos pacientes aos laboratórios de patologia e a importância de uma rede de atenção à saúde organizada, que permita o diagnóstico dentro de um tempo oportuno.
Agradeço mais uma vez a participação de todos, assim como de todas as entidades envolvidas, e passo a palavra à Mesa.
O SR. PRESIDENTE (Geraldo Resende. Bloco/PSDB - MS) - Agradeço ao Sr. Rogério Gundak por suas contribuições.
Passo a palavra à Sra. Kátia Marchetti, que vai falar sobre o tratamento em metástase de câncer de cabeça e pescoço, pelo prazo de 10 minutos para sua apresentação.
A SRA. KATIA REGINA MARCHETTI - Mais uma vez, obrigada pelo convite. Esta é a minha terceira participação. É com muito prazer que estou aqui hoje novamente para falar um pouquinho para vocês sobre câncer de cabeça e pescoço.
(Segue-se exibição de imagens.)
Hoje me coube falar um pouquinho para vocês sobre tratamento clínico de câncer de cabeça e pescoço e câncer de tireoide.
Para quem não me conhece, tenho toda a minha formação pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Sou médica oncologista pelo Hospital Sírio-Libanês e pelo Hospital de Base, aqui do Distrito Federal, e sou supervisora dos residentes também de oncologia. Faço doutorado em cabeça e pescoço.
Não tenho nenhum conflito de interesse na minha apresentação de hoje. Sou subinvestigadora de alguns estudos clínicos no Sírio-Libanês, mas nenhum que envolva cabeça e pescoço ou tireoide.
Bom, quando a gente fala de cabeça e pescoço, estamos tratando de uma área que abrange diversas regiões anatômicas, dentre elas: cavidade oral, nasofaringe, orofaringe, laringe, seios da face e cavidade nasal.
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Esse é um tumor que, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, teve, em 2022, uma incidência de 892 mil casos novos no mundo, sendo responsável por 458 mil mortes.
Noventa por cento dos casos diagnosticados estavam em estádio 3 ou 4, o que significa que eram cânceres em estágio avançado, localmente avançados ou metastáticos.
Quando a gente traz os dados do Instituto Nacional de Câncer — INCA, de 2025, vemos que 78% dos cânceres de cabeça e pescoço no Brasil estão em estágios avançados. Oitenta por cento deles ocorrem na população masculina, em pacientes com menos de 50 anos, com baixa escolaridade e relacionados ao consumo de álcool e ao tabagismo.
Sabemos que de 20% a 30% dos cânceres de cavidade oral estão relacionados ao etilismo e ao tabagismo e que a infecção pelo HPV, principalmente pelos tipos 16 e 18, é responsável por grande parte dos casos de câncer de orofaringe.
Lembro que, como foi dito, hoje temos a vacina quadrivalente disponível no sistema público para adolescentes, tanto meninas quanto meninos, e que também está disponível no sistema particular a vacina nonavalente, com cobertura um pouco maior para outros subtipos que também causam câncer de orofaringe.
Como comentado na apresentação anterior, a má saúde bucal e a doença periodontal também são fatores de risco importantes. A gente sabe que esses fatores representam formas de intervenção para reduzir o risco e favorecer o diagnóstico precoce.
O rastreamento populacional não é indicado, mas, como mencionado, a prevenção por meio de vacinação, cessação do uso de álcool e tabaco, além de cuidados com a higiene oral, principalmente em populações de risco, é fundamental.
Quando falamos de metástases, este é um câncer que, na maioria dos pacientes, acomete o pulmão. Alguns poucos pacientes desenvolvem metástases para fígado, osso e linfonodo não regional.
E o que temos de tratamento?
Até 2008, o tratamento para doença localmente avançada ou metastática era basicamente quimioterapia à base de cisplatina, associada a um taxano ou ao 5-fluorouracil — medicações citotóxicas que agem sobre a divisão celular e não têm um alvo específico.
Em 2008, foi publicado no New England Journal of Medicine um estudo que comparou a quimioterapia isolada com a quimioterapia associada a uma droga-alvo anti-EGFR, o cetuximabe. O estudo demonstrou um ganho de três meses na sobrevida global, com redução de 20% no risco de morte. Isso levou à aprovação, à época, do uso de cetuximabe associado à quimioterapia como tratamento de primeira linha para câncer de cabeça e pescoço metastático.
Em 2019, no New England Journal of Medicine, foi publicado outro estudo que comparou quimioterapia com cetuximabe e quimioterapia com imunoterapia, no caso, pembrolizumabe. Esse estudo foi atualizado em 2022 e demonstrou um ganho de 2.3 meses na sobrevida global, com redução de 29% no risco de morte, o que levou à aprovação dessa combinação.
Assim, a quimioterapia associada a pembrolizumabe — seja cisplatina, 5-fluorouracil e pembrolizumabe, ou carboplatina, paclitaxel e pembrolizumabe — tornou-se o novo padrão de tratamento de primeira linha, ficando a segunda linha para uso de outra combinação com cetuximabe.
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As demais linhas de tratamento que a gente tem são quimioterápicos com baixa taxa de resposta — em torno de 10% a 15% — e que não trouxeram ganhos de sobrevida tão relevantes quanto as linhas anteriores.
A gente acaba sempre realizando pesquisa de mutações específicas, como fusões de N-Track e mutações de BRAF, para tentar fazer um tratamento mais direcionado. No entanto, essas mutações não são tão comuns nessa população, mas, quando se trata de um cenário particular, isso acaba sendo oferecido.
Apesar da aprovação, em 2008, do cetuximabe e, em 2022, do pembrolizumabe, hoje, no SUS, o que a gente tem disponível ainda é a quimioterapia baseada em cisplatina e 5-fluorouracil ou paclitaxel.
Com relação à tireoide, o câncer é relativamente comum. Segundo dados da OMS de 2020, a incidência é de aproximadamente 10,1 mulheres a cada 100 mil e 3,1 homens a cada 100 mil, ambos desenvolvendo câncer de tireoide. A média de idade é em torno de 50 anos, e o câncer de tireoide apresenta um espectro de doença bastante variado.
Temos, por exemplo, os tumores bem diferenciados — indolentes, ou seja, de crescimento lento — que, normalmente, são tratados apenas com cirurgia, sem necessidade de terapias complementares; o câncer medular, de comportamento intermediário, que, quando diagnosticado precocemente, é tratado com cirurgia e apresenta bons resultados; e o câncer anaplásico, extremamente agressivo, que geralmente já é diagnosticado em estágio metastático, com sobrevida de semanas a poucos meses, independentemente do tratamento.
No câncer diferenciado de tireoide, o carcinoma papilífero representa de 70% a 80% dos casos, sendo, em geral, achado incidental, com sobrevida global em 10 anos superior a 90%. O carcinoma folicular responde por cerca de 10% dos casos, com sobrevida global na doença localizada próxima de 100%, mas que cai para cerca de 63% em 5 anos nos casos metastáticos. Já o carcinoma de células de Hürthle corresponde a 3% a 4% dos cânceres bem diferenciados, com sobrevida global em 5 anos entre 85% e 95%.
Como se observa, quando diagnosticado precocemente, a taxa de cura desses tumores é praticamente de 100% e, mesmo nos casos metastáticos, mais de 80% dos pacientes estão vivos após 5 anos.
O carcinoma medular, na forma localizada, também apresenta sobrevida próxima de 100%, mas, na doença metastática, essa taxa cai para cerca de 63% em 5 anos.
Ele pode estar associado a mutações no gene RET, que ocorrem em parte significativa dos casos e podem estar relacionadas a síndromes genéticas, como MEN2A e MEN2B, ou a predisposições genéticas não necessariamente ligadas a síndromes neuroendócrinas. A maioria deles acaba sendo esporádica, e este é um câncer que, dentre os cânceres de tireoide, se apresenta em torno de 1% a 3% dos casos — o medular.
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O anaplásico é bem mais raro, ocorre geralmente em pacientes com mais de 65 anos e a sobrevida, como mencionei, costuma ser de semanas a meses.
Quanto ao rastreamento, apesar de sabermos que praticamente todo mundo realiza um ultrassom de tireoide anual, ele não é recomendado para a população geral, pois o risco de se encontrar um nódulo é muito grande e a maioria deles é benigna.
Quando temos um câncer de tireoide metastático, ele costuma acometer principalmente o pulmão, embora metástases no sistema nervoso central também sejam possíveis.
No tratamento metastático da doença — do carcinoma bem diferenciado —, um dos pontos mais importantes é a supressão tireoidiana. Trata-se de um câncer mais lento, o que permite a realização desse tratamento por bastante tempo. Posteriormente, pode haver necessidade do uso de drogas como os inibidores de tirosino-quinase, a exemplo do lenvatinibe e do sorafenibe, que são considerados medicamentos de primeira linha. Atualmente, no SUS, dispomos apenas do sorafenibe; o lenvatinibe não está disponível.
E a gente acaba fazendo também pesquisas de mutações-alvo, como NTRK, RET, BRAF e instabilidade, para tentar outras opções terapêuticas. Contudo, por ser um câncer indolente, muitas vezes a gente opta apenas pelo tratamento de oligometástases e seguindo com lenvatinibe ou somente a supressão tireoidiana.
No carcinoma medular de tireoide, a gente tende a ser mais agressivos. Quando a gente tem mutações do RET, utiliza o selpercatinibe. Nos casos sem essa mutação, recorremos ao vandetanibe e realizamos pesquisas adicionais para tratamentos dirigidos. Nenhuma dessas medicações está disponível no SUS, de forma que, atualmente, os medulares de tireoide são tratados com quimioterapia, apresentando taxas de resposta bastante baixas.
Já os carcinomas anaplásicos de tireoide, por serem de crescimento muito rápido, costumam provocar inúmeros sintomas cervicais. Assim, mesmo quando a doença é metastática, tentamos realizar um controle local no pescoço do paciente, utilizando quimioterapia. Dispomos de diferentes regimes quimioterápicos para esse fim.
Sabemos que muitos desses pacientes apresentam mutação do BRAF, e que a resposta ao uso combinado de dabrafenibe e trametinibe é significativa. No entanto, essas medicações não estão disponíveis no SUS. Portanto, na prática, recorremos à quimioterapia à base de cisplatina ou de doxorrubicina, que apresentam taxas de resposta razoáveis, mas de curta duração.
Era isso que eu queria compartilhar com vocês. Caso tenham alguma dúvida, estou à disposição. Sintam-se à vontade para fazer qualquer pergunta ou me enviar uma mensagem. Obrigada. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Geraldo Resende. Bloco/PSDB - MS) - Agradeço à Sra. Kátia Marchetti por suas contribuições.
Passo a palavra à senhora Elisabete Carrara, que nos acompanha virtualmente, para discorrer sobre pré-reabilitação, reabilitação em linha de cuidados no câncer de cabeça e pescoço.
A SRA. ELISABETE CARRARA DE ANGELIS - É uma alegria e uma honra muito grande estar aqui. É uma oportunidade e nós sabemos o valor deste momento. Agradeço à Melissa, ao Gabriel, à ACBG e aos Deputados.
(Segue-se exibição de imagens.)
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Vou falar, então, neste tema de pré-reabilitação, reabilitação e linha de cuidados.
Vou mostrar um paciente que fez uma cirurgia extensa. Esses vídeos foram liberados para apresentação.
É um paciente que passou por uma cirurgia extensa. Ele retirou a língua inteira. Então, vemos toda a complexidade: os tubos, a traqueostomia, o orifício no pescoço, a sonda no nariz para alimentação, a grande dificuldade de fala. Ele fala pela primeira vez após a cirurgia e agradece à Nossa Senhora.
E aqui ele está, um mês e pouco depois, na sua casa. Ele era um chef gourmet, gostava de cozinhar.
(Exibição de vídeo.)
Sem língua. E ele comendo aqui com a família, falando, comendo sem a língua a sua costela.
Então, esse é um grande ideal de reabilitação.
Aqui, outro paciente que era e é — continua, graças à reabilitação – um poeta. Ele fez uma laringectomia total, retirou toda a laringe, perdeu a voz completamente após a cirurgia, e aqui ele está declamando um poema, que é a sua paixão.
Então, o tratamento do câncer de cabeça e pescoço já foi abordado algumas vezes. Independentemente da modalidade, ao afetar essas regiões únicas no nosso corpo, que têm múltiplas funções — funções vitais, além de toda a estética —, ele pode acarretar sequelas na voz, na fala, na deglutição, em diferentes graus. Quanto mais avançado o câncer, quanto mais tarde esse diagnóstico for feito, piores são as sequelas.
Aqui, as sequelas de fala vocês já viram. Aqui, um paciente tentando engolir e, no momento em que ele engole, o alimento, em vez de entrar no esôfago, que é o correto, ele entra no pulmão. Aqui, contrastado, então aqui ele vai entrar no pulmão, o que muitas vezes é causa de pneumonia e até óbito. Quer dizer, o paciente morre de uma complicação, de uma dificuldade de engolir, de comer, e não pelo câncer. Muitas vezes ele está curado do câncer e morre de uma pneumonia.
Então, temos que — obviamente, a cura é o grande objetivo, não há dúvida quanto a isso —, mas o cuidar... a jornada do paciente oncológico é maior e envolve toda a reabilitação. A jornada do paciente oncológico é maior e envolve toda a reabilitação e, mais ainda, a reinclusão, a reinserção social.
17:35
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Então, a gente tem um time muito grande — que já deu para perceber que é importante no câncer de cabeça e pescoço, com todas as suas particularidades — formado por cirurgiões, psicoterapeutas, oncologistas e todo o time de reabilitação, que é o tema da minha fala.
Segundo a OMS, o que é a reabilitação? É um conjunto de intervenções com o propósito de melhorar o funcionamento e reduzir a deficiência originada da interação entre indivíduos com condições de saúde e seu ambiente.
E qual o objetivo de uma reabilitação em câncer? Ajudar o paciente a se tornar o mais ativo possível e a participar da vida em família, voltar ao trabalho e a outras funções sociais. Também diminuir os efeitos colaterais e sintomas do câncer e de seu tratamento, além de promover maior independência e melhor qualidade de vida.
Hoje em dia, dentro da reabilitação, entendemos essa linha de cuidado, essa jornada de cuidado, desde a preabilitação. Desde o momento em que o paciente é diagnosticado, a reabilitação pode e deve atuar: no início, durante o tratamento — muitas vezes radioterápico ou quimioterápico —, com a reabilitação de suporte, quando trabalhamos as sequelas, e até na reabilitação paliativa, em que há muitas possibilidades de atuação e de melhora na qualidade de vida.
Na preabilitação, o paciente que recebe orientação sobre possíveis sequelas de fala e deglutição pode chegar ao pós-tratamento com muito mais tranquilidade. Nesse momento, são feitos encaminhamentos necessários para nutrição — muitos pacientes submetidos a cirurgias avançadas, por exemplo, de língua, precisarão de sonda nasoenteral, pelo menos no período pós-operatório imediato. Também são feitos encaminhamentos para nutrição especializada, com dietas industrializadas, para o dentista, para o psicólogo. Todo esse acolhimento inicial já oferece segurança ao paciente, o que pode fazer uma grande diferença. Muitas vezes, a avaliação inicial e até mesmo uma intervenção precoce são fundamentais.
Um paciente que chega muito emagrecido, com perda de força muscular, se receber intervenção da reabilitação nesse momento, terá resultados cirúrgicos muito melhores. O dentista, por exemplo, é extremamente importante já no pré-cirúrgico, para realizar moldagens de próteses que possibilitarão ao paciente um pós-operatório melhor.
Aqui trago o caso de uma paciente de 16 anos, tratada. Mas olhem a voz... Ao colocar a prótese e realizando a reabilitação fonoaudiológica, conseguimos avanços importantes: “Dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito...”.
Portanto, há uma grande integração entre o tratamento para a cura — seja cirúrgico, seja quimioterápico — e o cuidar. É o curar, mas também o cuidar. A integração desse cuidar garante qualidade de vida e amplia as perspectivas dessa jovem ao retornar com uma fala muitomais aceitável socialmente.
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Como a Melissa disse, existem estudos recentes preocupados com o índice de suicídio nos pacientes sobreviventes do câncer, particularmente nos sobreviventes do câncer de cabeça e pescoço. Enquanto temos cerca de 23 suicídios por 100 mil pessoas em pacientes com câncer de forma geral, nos pacientes com câncer de cabeça e pescoço essa taxa eleva-se para 63,4 suicídios. Isso significa que a taxa de suicídio é muito maior em pacientes dessa região devido às questões relacionadas à fala, deglutição, aparência, respiração e traqueostomia.
Os sobreviventes de câncer de cabeça e pescoço têm duas vezes mais probabilidade de morrer por suicídio, e essa taxa está aumentando. Houve um aumento de 27% neste período comparado com o período de 2000 a 2004.
Podemos e devemos trabalhar antes da reabilitação, já na presença do tumor. Imagens cerebrais mostram diferenças no cérebro na presença de um tumor e o quanto há modificações, aspectos que podem e devem ser trabalhados. Durante o tratamento, há vários estudos demonstrando que, se o fonoaudiólogo inicia seu trabalho durante a radioterapia, o paciente chegará ao pós-radioterapia deglutindo muito melhor, falando muito melhor e tendo melhor qualidade de vida. Isso vale para qualquer modalidade de tratamento, qualquer região e qualquer sítio tumoral após o tratamento.
Falando especialmente da laringectomia total: o indivíduo perde a laringe, passa a respirar pelo traqueostoma, não há mais comunicação com o nariz, tem alterações de olfato e perde 100% da voz. Temos opções de reabilitação, como a laringe eletrônica, pela qual a Melissa se comunica, e a colocação de próteses. Contudo, tudo isso tem um custo que nem sempre o paciente tem possibilidade de arcar.
Além disso, há toda a reabilitação: quando o traqueostoma fica aberto definitivamente, o pulmão reage produzindo muco, desenvolvendo infecções e sinusites. Atualmente, a ciência já mostrou que a utilização de filtros reabilita esse pulmão; novamente, isso não é disponibilizado para grande parte dos pacientes.
Estudos também demonstram as dificuldades financeiras que o paciente com câncer de cabeça e pescoço enfrenta.
Aqui, mostro um paciente que passou por retirada da laringe comentou sobre isso: "A preocupação com a parte financeira também passou a ser um grande fantasma, porque quando você é o provedor da família, isso impacta todos, mas principalmente o paciente. Há ainda os remédios que, com o tempo, vão aumentando em quantidade e finalidade. Há insumos necessários para se ter uma qualidade de vida razoável ou boa. O laringectomizado total precisa proteger seu estoma e necessita de filtros adesivos, para se ter uma ideia".
Para finalizar, deixo um vídeo que fala um pouco da prevenção e de quanto, antes de atuarmos nesses pacientes e quanto mais multidisciplinarmente atuarmos, teremos melhores chances de cura, menores sequelas e muito mais chances de reabilitação e reinserção social.
Obrigada pela atenção.
(Exibição de vídeo.)
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O SR. PRESIDENTE (Geraldo Resende. Bloco/PSDB - MS) - Obrigada, Sra. Elisabete Carrara por suas contribuições.
Passo a palavra ao Sr. Marcos Santos, que nos acompanha virtualmente, para ele discorrer sobre o teste molecular com avanço da ciência brasileira no diagnóstico do câncer indefinido da tireoide.
O SR. MARCOS CÉSAR DE OLIVEIRA SANTOS - Boa tarde a todos.
Queria iniciar agradecendo, mais uma vez, pelo terceiro ano, o convite da Melissa e do Gabriel Marmentini, da ACBG, que fazem um trabalho excepcional no Brasil com a conscientização do câncer de cabeça e pescoço e também com diversas ações de ordem prática. Sou muito fã deles.
Agradeço à Deputada Silvia, ao Deputado Geraldo Resende e a todos da Comissão Especial de Saúde e da Comissão de Combate ao Câncer.
Acho um espaço extremamente necessário para que possamos trazer novas informações e dados que ajudem a mudar um pouco dessa realidade no Brasil.
(Segue-se exibição de imagens.)
Hoje eu vou falar sobre um tema de nódulos de tireoide. O Dr. Rogério já adiantou um pouco o tema, assim como outros colegas, mas trata-se de um problema de saúde pública não muito conhecido.
Deixo aqui meus conflitos de interesse: a Sociedade Brasileira de Endocrinologia sugere que 60% da população vai identificar um nódulo na tireoide em algum momento da vida — e isso é bastante gente. A partir do momento em que identificamos esse nódulo, existe uma série de fatores a serem considerados para identificar se ele é benigno ou maligno.
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A boa notícia é que a grande maioria desses nódulos são benignos, e o paciente fará apenas o acompanhamento. Uma minoria apresenta alta suspeita ou malignidade confirmada e, nesses casos, o tratamento é cirúrgico. Entretanto, existe uma grande “zona cinzenta”, que pode chegar a 30% dos casos, em que não se sabe se o nódulo é benigno ou maligno. Esses pacientes, então, são encaminhados para a chamada cirurgia diagnóstica.
O problema é que pecamos pelo excesso: retiramos a tireoide do paciente apenas para saber se havia câncer ou não. Em cerca de 20% desses casos, confirma-se a malignidade e o paciente, na maioria das vezes, fica curado. Contudo, em 80% das cirurgias diagnósticas realizadas no mundo, os nódulos são benignos. Ou seja, 80% dessas cirurgias poderiam ser evitadas.
A partir do momento em que se retira a tireoide, o paciente torna-se crônico para o sistema de saúde, necessitando de reposição hormonal pelo resto da vida e podendo, muitas vezes, ter complicações como problemas de voz ou hipoparatireoidismo. É um paciente que perde qualidade de vida e saúde, além de gerar alto custo desnecessário ao sistema.
E não são poucas pessoas. Estima-se que cerca de 50 mil cirurgias desnecessárias de tireoide sejam feitas todos os anos só no Brasil. Não me refiro ao total de cirurgias de tireoide, mas especificamente às desnecessárias.
Isso impacta diretamente não só os pacientes, mas também o sistema de saúde, aumentando a fila de cirurgias eletivas — e o SUS é um dos maiores impactados. Hoje, há milhões de pacientes aguardando cirurgias eletivas, e grande parte delas acaba sendo de tireoide, mesmo quando poderiam ser evitadas.
A Câmara já começou a olhar para esse problema, mas ainda de forma incipiente, apenas divulgando a posição dos pacientes na fila, sem maiores medidas.
Uma das alternativas para esses pacientes é o chamado teste molecular, recomendado em praticamente todas as diretrizes do mundo: brasileira, americana, europeia e internacional. Devemos nos orgulhar de que essa é uma tecnologia rara no mundo: só existem quatro disponíveis, três nos Estados Unidos e uma desenvolvida aqui no Brasil, chamada Mirtype.
Esse é um teste 100% nacional, desenvolvido com pacientes brasileiros, validado na população brasileira, com extrema evidência científica publicada em periódicos de alto impacto. Mais de 7.500 pacientes já foram beneficiados com esse teste no mundo real. O problema é que esses pacientes, em sua maioria, estão no sistema privado.
Para encerrar, deixo um dado preocupante: vocês sabem quantas tecnologias 100% brasileiras estão disponíveis no nosso sistema de saúde?
Na Conitec, que prevê as tecnologias para o SUS: zero.
Na ANS, que regula os planos privados: zero.
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Portanto, questionamos se isso constitui uma prioridade para o Ministério da Saúde. Observamos que, pela matriz de desafios tecnológicos, o PEDIU apresenta essa questão como uma das prioridades. Constatamos também que, especificamente, as tecnologias voltadas para a tireoide, com base genética e de testes moleculares, são indicadas como uma das prioridades para o sistema de saúde.
Dessa forma, na prática, precisamos fortalecer o SUS e o complexo industrial da saúde com ciência 100% nacional. É necessário compreender se isso é realmente uma prioridade declarada e formalizada, ou se ela se materializa efetivamente na prática.
Há bastante tempo solicitamos a revisão do PCDT de tireoide, que representa uma necessidade não atendida, para que façamos uso de tecnologias custo-efetivas. Esse é o tipo de tecnologia que não apenas melhora o desfecho do paciente, evitando cirurgias desnecessárias, mas também economiza recursos para o sistema de saúde, uma vez que previne gastos com procedimentos cirúrgicos muito mais custosos do que o diagnóstico.
Hoje dispomos de tecnologia 100% nacional que melhora o desfecho clínico e economiza recursos para o sistema de saúde. Recentemente, uma notícia veiculada na Folha de S.Paulo informou que esse teste já economizou mais de R$ 7 milhões, contudo, apenas na saúde privada. O teste tem potencial para economizar até 385 milhões de reais para o Sistema Único de Saúde, mas ainda não está disponível.
Gostaria de agradecer mais uma vez pela oportunidade, deixo aqui meus contatos para eventuais dúvidas ou discussões, e reitero meu agradecimento pelo espaço concedido pela Comissão.
Obrigado.
O SR. PRESIDENTE (Geraldo Resende. Bloco/PSDB - MS) - Obrigado, Dr. Marcos Santos por suas contribuições.
Passo a palavra ao Sr. Gabriel Marmentini, que discorrerá sobre o cenário do câncer de cabeça e pescoço, onde estão os dados para planejar políticas públicas.
O SR. GABRIEL MARMENTINI - Gente, cabe a mim fazer a última fala então para encerrar este dia maravilhoso e com um tema tão importante a ser discutido.
Eu sou o Gabriel Marmentini, sou cofundador da ACBG Brasil, Associação Brasileira de Câncer de Cabeça e Pescoço, sou doutor em administração e venho dedicando a minha vida há bastante tempo a construir melhores políticas públicas, sobretudo para essa área.
Vocês viram a Melissa mais cedo — a Melissa é minha mãe —, juntos, a gente vem travando batalhas já há 10 anos.
Ela falou um pouco das nossas conquistas em 10 anos, mas embora tenha muita coisa bacana a celebrar, a gente também ainda tem muita coisa para alcançar. Então a minha fala vai focar principalmente em pontuar questões importantes para que a gente tenha esse registro aqui, para que os Parlamentares presentes e os futuros que vão assistir saibam o que a gente precisa continuar colaborando juntos.
(Segue-se exibição de imagens.)
O primeiro ponto que eu queria destacar é que em 2019 a gente teve a coragem de começar a fazer pesquisas. Ainda não somos um instituto de pesquisa com toda a capacidade técnica, metodológica para poder chegar em achados a ponto de generalizá-los muito bem e emplacar isso. Estamos aprendendo ainda, mas foi em 2019 que a gente teve o embrião da pesquisa Cenário do Câncer de Cabeça e Pescoço no Brasil e recentemente a gente fez a segunda edição com o apoio da Universidade Federal de Santa Catarina.
O Gundak, que estava aqui falando conosco on-line, nos apoiou nesse processo. E isso veio muito de uma carência nossa de não entender muito bem o setor e às vezes não encontrar os dados que a gente precisava. Então, pensamos: vamos nós atrás dos dados, vamos perguntar para as pessoas.
Na pesquisa mais recente, a gente ouviu 173 profissionais de todas as regiões do Brasil, mais de dez especialidades diferentes, infelizmente não conseguimos todas as especialidades que envolvem equipe multi.
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Existem algumas evidências que apontam para a estrutura ainda limitada nas unidades de saúde, a falta de formação básica em câncer de cabeça e pescoço para muitos profissionais e, consequentemente, a ausência de educação continuada para atualizar essa formação.
Falta também a realização de reuniões clínicas para discutir casos do ponto de vista de equipe multiprofissional, de modo que possamos compartilhar saberes e reforçar que temos várias especialidades envolvidas no câncer de cabeça e pescoço. Isso evidencia, ainda, a ausência de grupos de pacientes de acolhimento, espaços em que as pessoas possam se encontrar com frequência para justamente se reciclar, se conectar e não se sentirem sós.
Essa pesquisa que realizamos, embora ainda não taxativa nem com todas as conclusões generalizáveis, levanta boas hipóteses e confirma lacunas já apontadas por outros artigos científicos de pesquisadores que estudaram o tema de forma aprofundada.
Ainda temos muita carência de políticas públicas, tanto no que tange à prevenção, quanto à promoção da saúde, ao tratamento e à reabilitação. Portanto, precisamos usar esses dados a favor da construção de melhores políticas.
Na pesquisa, citamos um pouco do cenário do câncer de cabeça e pescoço, que os colegas anteriores já apontaram muito bem.
Aqui, destaco alguns dados: trata-se da sexta neoplasia mais comum no mundo e da quinta mais comum entre os homens, quando o assunto é cavidade oral. Cerca de 76% dos casos são diagnosticados tardiamente — foi o caso da minha mãe, por exemplo.
Na nossa pesquisa, identificamos que muitas instituições não contam com fisioterapeutas preparados para a reabilitação de pacientes com câncer de cabeça e pescoço. Outras ainda carecem do IMRT, tecnologia mais avançada para radioterapia. Muitas alegam não realizar sequer reuniões clínicas para debater esse tipo de caso, e boa parte dos pacientes encontra-se em situação de vulnerabilidade social.
Também enfrentamos grandes dificuldades em orientar esses pacientes sobre seus direitos e em garantir a integralidade do tratamento, sem rupturas ao longo do processo. Esse contexto reforça a necessidade de olharmos para as lacunas existentes e de estabelecermos prioridades.
Nos próximos eslaides, apresento as prioridades da ACBG Brasil para o próximo triênio. Muitas delas já fazem parte da nossa luta há mais de um decênio, mas ainda não avançaram como deveriam. Seguimos passo a passo.
Recentemente, tivemos a promulgação da PNPCC, a Política Nacional para Falar de Oncologia. Agora, ela não pode ser apenas uma lei no papel. Essa é uma das nossas grandes agendas. Entre os capítulos que a compõem, destacamos em negrito a navegação de pacientes e a reabilitação oncológica, áreas em que mais atuamos e para as quais contribuímos diretamente, inclusive na redação do capítulo sobre reabilitação oncológica. Como bem destacou a Melissa no início, é preciso dar ênfase à reabilitação de pacientes com mutilações faciais, como ela própria e tantos outros colegas.
Essa é, portanto, uma grande prioridade nossa, enquanto sociedade civil. O Parlamento precisa garantir que essa política seja executada pelo Poder Executivo, chegando efetivamente na ponta e trazendo as melhorias que desejamos.
Outro ponto importante é a Portaria nº 516, do Ministério da Saúde, que atualizamos anteriormente em conjunto com um grupo amplo de sociedades médicas e de outras especialidades. A mensagem foi clara: "A forma de tratar pacientes com câncer de cabeça e pescoço não pode ser a mesma estabelecida na portaria original, é preciso avançar". Aí, a gente rescreveu todo o processo e o submetemos à Conitec. De lá para cá, a gente teve alguns avanços, mas o processo ainda não foi concluído.
Desde 2019, a gente segue nesse diálogo com a Conitec. É verdade que houve a pandemia e outras dificuldades, mas será que justifica tanto tempo para atualizar uma documentação tão importante?
Outra norma igualmente relevante é a Portaria nº 400. Ostomias respiratórias importam, e a gente também se importa. Em 2019, já realizamos reuniões e enviamos recomendações à Coordenação-Geral da Pessoa com Deficiência, no Ministério da Saúde. Mas até hoje não temos resultados. Precisamos, de uma vez por todas, aprimorar esse dispositivo legal, que ainda carece de instruções específicas para pessoas como a minha mãe, que utiliza uma ostomia respiratória.
Em Santa Catarina, realizamos uma grande inovação. Santa Catarina é o único Estado do Brasil que hoje cuida das pessoas com necessidades como a da minha mãe para reabilitar tanto a parte pulmonar como a fonatória, e a gente quer levar isso para o Brasil todo.
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Então, estamos na iminência de publicar e implementar um protocolo nacional que, inspirado na situação de Santa Catarina, seja um norteador para o Brasil inteiro, para que a gente não precise mais ficar implorando pelo básico, que é poder respirar e falar.
Também estamos desenvolvendo uma linha de cuidado integral para mutilados faciais. Aqui temos nosso colega Erich, que já foi citado, é nosso voluntário e se enquadra nesse contexto, merecendo melhores políticas públicas. Nós, como Conselheiro Nacional de Saúde — Melissa, inclusive, precisou sair porque está iniciando uma reunião do Conselho Nacional de Saúde —, escrevemos uma recomendação via CISB, que é a Comissão Intersetorial de Saúde Bucal, justamente para poder dizer: mutilados faciais importam. Essa é uma agenda que eu gostaria que todos vocês se comprometessem a apoiar, para que juntos buscássemos melhores políticas públicas para essas pessoas.
Também destaco os dentistas, que têm um papel muito importante cuidando da gente, mas que podem ter ainda maior relevância no momento em que identificam lesões que são cânceres e que, muitas vezes, não foram treinados para reconhecer. A cavidade oral nos leva, frequentemente, a um estadiamento muito avançado. Um artigo super recente mostra que a gente chega muito tarde no diagnóstico de câncer de cavidade oral e também de cabeça e pescoço em geral.
Uma das demandas da ACBG Brasil e que estamos buscando contribuir com o Governo é justamente avançar no diagnóstico precoce e no preparo dos odontólogos, para que eles possam ser aliados nesse processo.
Temos também a pauta da nutrição. Pessoas como a minha mãe precisam, muitas vezes, de nutrição especializada. Ela ficou 6 meses com sonda, precisou se alimentar com produtos específicos e, agora, com a política nacional — a PNPCC Nacional de Oncologia, que trata também de nutrição, entre outros PLs que acompanhamos —, precisamos valorizar mais a importância desse tema, tanto no antes, como no durante e no depois. Nutrição faz diferença e salva vidas. Inclusive, trago aqui uma foto minha com minha mãe, quando ela precisou desse cuidado específico.
Outro destaque é a imunização. Na mesma lógica da nutrição, há o antes, o durante e o depois. O paciente recebe todo um tratamento com carga pesada e precisa estar com o sistema imunológico fortalecido. Vacinas para pacientes crônicos — no nosso caso, de câncer — importam e muitas vezes não são bem comunicadas. Criamos uma carteirinha específica de vacinação para que nossos pacientes saibam o que podem buscar. Ela é gratuita e estamos estimulando que cada vez mais pessoas a emitam, para popularizar o tema da imunização.
Temos ainda uma agenda relacionada à saúde mental. Já foi dito anteriormente que o suicídio, infelizmente, é alto. Não vou me alongar, mas isso não pode ser tabu. Precisamos falar de saúde mental em todos os cânceres, em todas as enfermidades. No caso do câncer de cabeça e pescoço, temos literatura que comprova taxas ainda maiores, e isso não é aceitável.
O tabaco também já foi abordado. Cigarros eletrônicos estão na moda e esses dispositivos precisam ser combatidos. Eles vêm com a falácia de ajudar a parar de fumar, mas não é o que temos visto na prática. Precisamos estar atentos às inovações da indústria quando surgem não para o bem, mas para o mal. Temos tido muitos casos de jovens usando cigarro eletrônico, além do impacto do HPV, que se conecta com a pauta da imunização. Portanto, vacinas salvam vidas.
O Marcos acabou de falar, e eu apenas pontuo a importância de termos uma agenda mais articulada, buscando novas tecnologias, não apenas as que ele apresentou, mas todas as relacionadas a teste molecular, terapia-alvo, imunoterapia e equipamentos. Sim, temos dificuldades orçamentárias, mas precisamos discuti-las com transparência e com capacidade de resolver problemas, em vez de sempre nos justificarmos dizendo que falta dinheiro para tudo.
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O câncer de pele, caso vocês não saibam, em sua maior parte se manifesta na região da cabeça e do pescoço. Então, a gente tem, sim, que trabalhar com medidas muito básicas, como entregar protetor solar para as pessoas, fornecer um chapéu, um boné, sobretudo na área rural.
Várias pesquisas apontam a dificuldade dessas pessoas em se protegerem e, portanto, acabam tendo cânceres muito mais evitáveis. Ou seja, dá para prevenir de forma mais fácil com algumas atitudes simples. Só que a gente ainda enfrenta muitas dificuldades. Nove em cada dez tumores da pele estão localizados na região da cabeça. O couro cabeludo apresenta expressividade de 13% dos casos de câncer de pele.
Encaminhando-me para o fim, estamos no Julho Verde, a campanha nacional de prevenção do câncer de cabeça e pescoço, da qual várias organizações colaboram, como destacou o Rogério Dedivites no início. A SBCCP iniciou esse processo lá atrás e, desde então, a ACBG Brasil vem engajando também com a sua própria campanha, entre outras organizações que colaboram para que a gente popularize esse tema.
E, neste ano, a nossa campanha tem a nomenclatura Da boca aos pulmões, para destacar a importância de lembrar que muitas das metástases do câncer de cabeça e pescoço acabam indo para o pulmão. Então, também precisamos olhar para políticas públicas específicas para o pulmão, porque, se o caso já está grave em câncer de cabeça e pescoço, a tendência é que também se agrave no pulmão, quando não tratamos problemas que poderão gerar metástase depois.
Por isso, engajem-se na campanha, acessem o site julhoverde.acbgbrasil.org para conhecerem, baixarem os materiais e solicitarem insumos para realizarem ações em seus territórios.
Este é o meu último eslaide, apenas para pontuar que, na minha tese de doutorado, mapeei diversos problemas que existem no campo do câncer de cabeça e pescoço. Nem metade deles apresentei aqui, pois são muitos. Mas nós não estamos aqui para reclamar, e sim para buscar soluções.
Que saibamos priorizar juntos algumas dessas alavancas para buscarmos melhorias, porque precisamos ir progredindo, sentir avanços, de modo que menos pessoas fiquem pelo caminho.
Há uma grande autora que admiro e que sempre me inspira a não esquecer que foram grupos de pessoas que aparentemente pareciam inofensivos, pequenos, muito ambiciosos, sonhadores, mas foram essas grandes pessoas que transformaram o mundo em todas as suas necessidades.
Nós, na ACBG Brasil, somos um pequeno e grande grupo de pessoas que vem transformando muitas coisas. E, tendo mais aliados como vocês, podemos transformar ainda mais.
Vamos adiante!
Muito obrigado por me escutarem. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Geraldo Resende. Bloco/PSDB - MS) - Agradeço ao Sr. Gabriel Marmentini por suas contribuições.
Gostaria de perguntar se algum dos palestrantes gostaria de fazer algum questionamento. (Pausa.)
Como não há solicitação, eu gostaria de fazer um encerramento.
Agradeço a presença a todos que contribuíram para a realização deste seminário, ao promover um debate tão qualificado e propositivo para debater sobre o tema da boca ao pulmão, câncer de cabeça e pescoço.
Acompanhem os trabalhos da Comissão de Saúde nos canais de comunicação da Câmara dos Deputados.
Tenham uma boa noite.
Passo a Presidência para a Deputada Silvia. (Pausa.)
Ela disse que está meia arfante porque veio correndo.
A Deputada Silvia é muito querida e muito comprometida. É muito prazeroso estar sempre com ela em alguns enfrentamentos aqui na Comissão de Saúde da Câmara.
Agradeço a todos e quero dizer que foi um belo debate, com belas contribuições. Vamos avançar nessa temática.
Parabéns!
Muito obrigado e até uma próxima oportunidade. (Palmas.)
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