1ª SESSÃO LEGISLATIVA ORDINÁRIA DA 56 ª LEGISLATURA
Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar as causas do rompimento da barragem de mineração Mina Córrego do Feijão, da empresa Vale S.A., situada no município de Brumadinho, no Estado de Minas Gerais, ocorrido em 25 de janeiro de 2019, bem como apurar responsabilidades por esse sinistro e avaliar formas de minorar os riscos da ocorrência de novos acidentes
(Reunião Deliberativa Ordinária)
Em 18 de Junho de 2019 (Terça-Feira)
às 14 horas e 30 minutos
Horário (Texto com redação final.)
15:16
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O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Nos termos regimentais, declaro aberta a 14ª reunião desta Comissão Parlamentar de Inquérito, convocada para tomada de depoimentos e deliberação de requerimentos.
Solicito a todos os presentes que, de praxe, como sempre fizemos, fiquem de pé para prestarmos 1 minuto de silêncio em homenagem às vítimas do rompimento da barragem de Brumadinho.
(O Plenário presta a homenagem solicitada.)
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Peço ao nobre Relator, Deputado Rogério Correia, que proceda à leitura do nome das vítimas, que são o objeto do nosso trabalho e grande empenho.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - George Conceição de Oliveira, Gilmar José da Silva, Giovani Paulo da Costa, Gisele Moreira da Cunha, Gislene Conceição Amaral, Glayson Leandro da Silva, Gustavo Andrie Xavier, Gustavo Sousa Júnior, Heitor Prates Máximo da Cunha, Helbert Vilhena Santos, Hermínio Ribeiro Lima Filho, Hernane Júnior Morais Elias, Hugo Maxs Barbosa, Ícaro Douglas Alves, Izabela Barroso Câmara Pinto, Janice Helena do Nascimento, Jhobert Donadonne Gonçalves Mendes.
Presentes.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Muito obrigado, Deputado Rogério Correia.
Tendo em vista que a ata da 13ª reunião foi disponibilizada na Internet e que se encontram cópias sobre as bancadas, indago se há alguma retificação a ser feita. (Pausa.)
O SR. VILSON DA FETAEMG (PSB - MG) - Peço a dispensa da leitura da ata, Sr. Presidente.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - O Deputado Vilson da Fetaemg pede a dispensa da leitura da ata.
Em discussão a ata.
Aqueles que a queiram discutir, manifestem-se. (Pausa.)
Em votação a ata.
Aqueles que a aprovam permaneçam como se acham. (Pausa.)
Aprovada.
Informo que a CPI recebeu a seguinte documentação: resposta da Vale ao Requerimento nº 96, de 2019; resposta da Polícia Federal ao Requerimento nº 36, de 2019; resposta da Secretaria do Meio Ambiente de Minas Gerais referente ao Requerimento nº 108, de 2019; resposta do Movimento dos Atingidos por Barragens ao Requerimento nº 107, de 2019; resposta da Vale ao Requerimento nº 74, de 2019; resposta da Defensoria Pública ao Requerimento nº 93, de 2019; resposta da TÜV SÜD aos Requerimentos nº 95 e nº 100 (documento sigiloso).
Informo aos Srs. Deputados que esses documentos estão à disposição da assessoria, com exceção do documento sigiloso, a que só o Parlamentar pode ter acesso. Os documentos já estão na Secretaria da Comissão. Todos estão à disposição, para que nós possamos fazer as devidas consultas.
Havendo concordância do Plenário, nós vamos iniciar a tomada de depoimentos.
Alcançado o quórum, nós vamos passar à deliberação dos requerimentos, porque nós precisamos aprovar três requerimentos para dar andamento à nossa Comissão.
Nós estamos aqui hoje com cinco convidados. São funcionários da Vale que estavam em Brumadinho. Esses estavam, não eram gerentes nem diretores. Os gerentes e os diretores não estavam, mas estes, aqui presentes, estavam lá. E três deles estão aqui, para a nossa honra, para contribuir como o nosso trabalho: o Sr. Elias Dias Nunes, o Sr. Fernando Henrique Barbosa e o Sr. Marco Antonio Ribeiro da Silva, todos funcionários da Vale. Os Srs. Sebastião Gomes e Leandro Borges apresentaram justificativa para ausência, por terem um atestado médico que diz da impossibilidade de se deslocarem até Brasília.
15:20
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Eu quero dar alguns informes antes aqui, para que possamos proceder ao início dos trabalhos. Eu não pude mais aguardar todos os Deputados. Eu sei que o Deputado Vilson da Fetaemg, a Deputada Áurea Carolina, o Deputado Domingos Sávio e o Deputado Rogério Correia subscreveram. Mas, em função do que aconteceu — eu vou disponibilizar isso aqui para a Comissão também —, nós não podíamos aguardar a subscrição de todos os Deputados da bancada.
Nós fizemos uma nota de moção de apoio à Vereadora Professora Andresa, de Mário Campos, que perdeu um filho na tragédia de Brumadinho. Por fazer parte da Comissão dos Desaparecidos, ela ficou ausente das sessões da Câmara de Vereadores de Mário Campos, por 90 dias. E, por incrível que pareça, os Vereadores, seus colegas, seus pares Parlamentares abriram processo disciplinar contra a Vereadora Andresa, no Município de Mário Campos, para que ela perdesse o mandato, por ter ficado na busca incessante de encontrar o seu filho no meio daquela lama terrível que acometeu o Córrego do Feijão, em Brumadinho.
Nós temos a subscrição de mais de 28 Deputados da bancada nesta moção que estou mandando ao Presidente da Câmara e também — e vou dizer o motivo — ao Sr. André Luiz Pimenta Almeida, Juiz de Direito da 2ª Vara Cível da Comarca de Ibirité. Por incrível que pareça, senhores assessores e colegas Parlamentares, a Vereadora teve que entrar com mandado de segurança para não perder o seu mandato.
Nós estamos encaminhando ao Vereador Josimar Silva Cardoso, Presidente da Câmara de Vereadores, esse ofício dos Deputados Federais, colegas Parlamentares que somos da Andresa, porque é impossível não haver uma regra de exceção em que se possa colocar o caso da Vereadora. Eles não tinham justificativa, então colocaram que, por ausência às sessões, ela corria o risco de perder o mandato que lhe foi conferido pelo povo de Mário Campos, que, como todos sabem, fica ali ao lado de Brumadinho.
Nós estamos encaminhando essa cópia e, junto, vou encaminhar à Secretaria a decisão do mandado de segurança da 2ª Vara Cível da Comarca de Ibirité, que ontem resolveu o seguinte: "Deve ser reformada uma decisão liminar que ordenou a quebra do sigilo bancário da testemunha e também a devolução do seu mandato, com possível arquivamento do processo disciplinar havido contra ela".
O Dr. André Luiz Pimenta Almeida baseou sua decisão em cinco pontos. E, pela gravidade do problema, nós iremos encaminhar este ofício com as referidas subscrições. Eu sei que mais Deputados Federais de Minas queriam subscrevê-lo, mas nós não podemos perder a oportunidade de encaminhar ao Sr. Juiz de Direito, assim como ao Presidente da Câmara, essa manifestação da CPI da Câmara dos Deputados do Brasil, em defesa do mandato da Vereadora Andresa, por motivos que não precisamos nem expor. Os motivos para o que ela fez são mais do que nobres.
15:24
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Outro informe que eu queria dar é que nós estamos no encaminhamento, todos sabem disso. Os convidados de hoje, que são funcionários da Vale, talvez não saibam que nós tivemos dificuldade para instalar esta CPI. Foi criada uma CPI no Senado quando nós queríamos criar uma CPI mista, para fazer uma apuração só, mas parece que os objetivos eram diferentes. Contudo, enquanto nós não conseguíamos criar esta CPI, trabalhávamos concomitantemente com a Comissão Externa de Brumadinho. Nós fomos a Brumadinho duas vezes e estivemos em outras localidades de Minas Gerais e em outros Estados do Brasil com a Comissão Externa — fomos a Goiás, ao Pará —, para poder fazer o que nos compete.
Cada um tem a sua competência. A Câmara dos Deputados, o Senado Federal e a Assembleia, que fazem uma CPI, não têm a competência nem a atribuição de prender ninguém. Nós não podemos fazer o papel da Justiça. Isso compete à Justiça. Nós podemos concluir nossos trabalhos e encaminhar à Justiça os processos e indiciamentos, para que o Ministério Público e a Justiça brasileira possam tomar suas devidas providências.
O que nós podíamos fazer nós fizemos nesses 5 meses. Apresentamos, há cerca de 1 mês, a legislação mais robusta possível no que concerne a minimizar os riscos de novas barragens romperem. Apresentamos uma legislação que trata da Política Nacional dos Atingidos por Barragens, para ressarcir aqueles que foram atingidos de uma forma ou de outra, seja por problemas no lençol, seja pelo comprometimento socioeconômico, seja pela perda de vidas. Esses indivíduos devem ter o seu ressarcimento com base em valores da época antes do rompimento da barragem, para não haver a desvalorização que hoje acontece em Macacos, em Itabirito, em Barão de Cocais, em Congonhas e em várias outras cidades. Estamos revendo a Política Nacional de Segurança de Barragens. Criamos mais um complemento à CFEM, para ampliá-la. Estamos trabalhando a questão da Defesa Civil. Acima de tudo, estamos trabalhando pela tipificação do ecocídio. Através dessa nova tipificação penal, as pessoas vão ser punidas penalmente por atos cometidos contra a fauna e a flora e quando houver vítimas fatais. Isso compete ao Parlamento. Essas proposições estão prontas, estão em plenário.
Eu posso testemunhar que aqueles que mais têm comprometimento são os que estão presentes: Deputados Vilson, Áurea, Rogério, Zé Silva, Janones, Padre João, Patrus, Igor Timo. Nós passamos as últimas 2 semanas imbuídos na luta no sentido da aprovação dos projetos. Inclusive, ontem fizemos uma obstrução firme a outros projetos. Mesmo hoje, com a Comissão da Previdência, com a presença do Ministro da Casa Civil, se a situação permitir e nós tivermos sessão, nós só vamos votar alguma coisa se estiverem incluídos na pauta os projetos de Brumadinho.
Nós estamos chamando de projetos de Brumadinho as sete proposições oriundas disso, e muitos de nós somos Relatores delas. Então, estão aqui os projetos. Nós estamos envolvidos em conversas. A ausência momentânea minha, da Deputada Áurea, do Deputado Rogério e de outros aqui, que atrasou a reunião, ocorreu porque nós estávamos justamente tentando fazer a negociação com o Governo e com outros Deputados. Há Deputados, parece-nos, que infelizmente começam a demonstrar que a representação que eles fazem aqui não é do povo mineiro e nem do povo brasileiro em geral, é do interesse das empresas, do interesse daqueles que querem continuar explorando de forma predatória o minério no Brasil, em áreas do nosso Estado de Minas Gerais e em outros Estados.
15:28
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Vamos passar direto aos depoimentos. Peço que hoje nós fiquemos restritos mesmo ao tempo de fala do Relator, dos Sub-Relatores e dos Deputados, porque nós estamos na iminência realmente de, feito um acordo, conseguirmos ir ao plenário votar essas matérias. Mas não podíamos prescindir de um depoimento que vem do outro lado da corrente de quem está na Vale, não só dos diretores e gerentes, mas agora dos funcionários. Eu tenho certeza de que os três aqui estavam em Brumadinho, no Córrego do Feijão, no dia 25 de janeiro.
Então, chamo os três, mas os chamo por esta ordem: Sr. Fernando Henrique Barbosa, funcionário da Vale, para que possa vir aqui à mesa. V.Sa. é muito bem-vindo. Muito obrigado pela presença. Chamo também o Sr. Elias de Jesus Nunes para que também possa vir aqui à mesa, e o Sr. Marco Antonio Ribeiro da Silva. Que possam vir os três à mesa, para que a possamos começar as oitivas.
Digo aos três que já estão vindo que nós passamos a palavra primeiro a vocês, se quiserem fazer alguma consideração inicial. Logo depois da consideração inicial, passamos para o Relator e para os demais Deputados presentes. Então, nesse intuito, enquanto eu cumprimento aqui o Fernando, que é muito bem-vindo... Fernando, obrigado por sua presença. Que você possa contribuir aqui. Deixo a seu critério, se você quiser usar o tempo todo ou não, para dar explicações, até 10 minutos para a sua explanação. Depois vamos passar a palavra para o Relator.
Cumprimento também o Sr. Elias e o Sr. Marco Antonio e agradeço as suas presenças. Depois que o Fernando fizer, vocês também vão ter os 10 minutos ou o tempo que julgarem necessário para fazer os esclarecimentos que assim lhes convier, para continuarmos a nossa oitiva. Vocês são convidados, não tem nenhum inquérito aqui, não tem nenhuma implicação jurídica, mas peço ao Fernando, primeiramente, que possa prestar o compromisso de falar a verdade na nossa CPI.
Sr. Fernando, concedo a palavra V.Sa.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Boa tarde, primeiramente. Meus cumprimentos a todo mundo presente aqui. Faço, sob a palavra de honra, a promessa de dizer a verdade do que souber e do que me for perguntado.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Muito obrigado, Sr. Fernando. Assim que ele terminar, passaremos a palavra, no momento da fala de vocês, para prestarem o compromisso também. Sr. Fernando, V.Sa. está com a palavra, por até 10 minutos para falar, se quiser e sobre o que quiser, a respeito do fato. Interessa-nos muito saber a situação e como o senhor passou por aquilo tudo que só pudemos ver depois pelos noticiários, pelas informações. Muito obrigado pelo seu comparecimento a esta CPI.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - O.k. Eu agradeço. Primeiramente vou contar um pouco da história de vida minha. Antigamente ali se chamava Ferteco Mineração S.A. Era uma empresa alemã, antes de a Vale adquirir. Meu pai trabalha lá há quase 40 anos. Trabalhava, não é? Ele faleceu. Ali antigamente tinha uma vila. Eu nasci lá dentro, fui criado lá dentro até os 15 anos de idade. Com 15 anos eu mudei de lá e com 18 anos eu me fichei lá. Tenho quase 18 anos de empresa. Eu mexia diretamente na área da barragem. O problema é o seguinte: eu vi a Cristina Malheiros dando depoimento daquele negócio. O que acontece? Há uns 6 ou 7 meses antes de a barragem se romper... Meu pai não era estudado, não, mas era referência na empresa. Pode até perguntar aos gerentes que saíram de lá: o Wanderley, o Anderson Belino, que já foi desligado... Qualquer problema que tinha, os engenheiros, os gerentes chamavam ele, de tanto conhecimento que ele tinha lá dentro, pelo tempo de serviço prestado. Eu estava no dia trabalhando naquela usina em frente à barragem. Não sei se os senhores viram o vídeo, ali chama-se ITM. Por volta de 22 horas estava a Cristina Malheiros, responsável geotécnica da barragem — ela que responde pela barragem —, estava o gerente, o Alano, que faleceu, e o Lúcio Medanha, responsável técnico da mina. Mandaram o supervisor Renato, que está lá agora de interino, gerente interino, tomando conta de tudo... Mandou o Rodrigo da Silva Moreira buscar meu pai lá em casa, às 10 horas da noite. Meu pai trabalhou a vida inteira.
15:32
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(Intervenção fora do microfone.)
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não, 6, 7 meses atrás do rompimento. Aí o Rodrigo da Silva Moreira, que trabalha lá até hoje, técnico da Vale...
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Como é o nome?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Rodrigo da Silva Moreira. Foi lá em casa com o carro, buscou meu pai. Meu pai chegou, avaliou. O que acontece? No quarto banco, entre o dreno central e a ombreira... Ombreira direita. Estou fazendo conta. Entre o dreno e a ombreira direita começou a brotar lama no talude. O que acontece? Eu estava na ITM. Eu e o Marco Aurélio, o Marco Aurélio Amorim. E a ITM tinha que continuar rodando. Subiram com o Marco Aurélio para a barragem; subiram com o Wagner Zacarias, que estava lá na britagem, para a barragem. O Renato Couto Figueiredo, que era o supervisor, foi para a barragem, a pedido do Alano, que era o gerente, junto com o meu pai. O que fizeram? Mandaram buscar, com ordem da Cristina. O primeiro que eu vi o depoimento aqui... A Cristina, a função dela era analisar os dados, fiscalizar e comunicar. Ela não tinha autonomia nenhuma para mandar mexer na barragem. Buscou o pessoal da usina. Eu trago aqui 15 testemunhas que estavam lá. Quinze testemunhas contra ela, se quiser fazer a acareação. Ela mandou abrir vala, colocar areia, brita e manta geotêxtil, o que a gente chama de Bidim. Mas Bidim é a marca. É manta geotêxtil, para filtrar. Aí, nisso ficou lá até de madrugada. No outro dia o meu pai não foi trabalhar, não. Ficaram lá carregando areia e brita igual doidos, o Rodriguinho buscando lá. No outro dia o meu pai não foi trabalhar, porque ele ficou até de madrugada lá, e deram folga a ele. Aí eu ia pegar um ônibus 15 para as 3 da tarde. E quando eu estava saindo de casa, meu pai falou comigo: "Ô, Fernando, ô, filho, você que fica na ITM, fica na parte mais alta, que aquela barragem está igual a uma bomba. Aquilo está condenado. Ela vai estourar a qualquer hora. Qualquer barulho, você corre sentido a 14B." A 14B é onde tem um predinho ali, do lado da barragem B6. Eu mesmo não levei muito a sério, não, sabe? Falei assim: "Aquilo não estoura". Mas o pai tinha um conhecimento. Aí falei assim: "Ô, pai, você não falou nada com a Cristina, com o Alano nem com o Lúcio, não?" Ele falou: "Falei, filho, só que o Alano falou que a Cristina tinha que comunicar, ia ter que parar as obras tudo, igual estão parando agora nos outros lugares". Meu pai falou: "Tem que tirar o pessoal do Córrego do Feijão, tirar o pessoal de baixo, que isso aqui vai estourar agora, daqui a 1 mês, daqui a 2 meses". Ele falou: "Não fica beirando aquilo lá, não, que vai estourar". Eu mesmo não dei muita atenção, não acreditei. Falei: "Beleza, pai". E fui trabalhar normal. Aí acabou que passaram 6, 7 meses, não sei a data exata, e o que aconteceu? A barragem estourou. Eu larguei o serviço 7 horas da manhã, passei nessa barragem 5 e meia da manhã — eu e Carlos Cristian. Passamos nela, trocamos o turno. Troquei o turno com 7 pessoas, 6 delas morreram.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Trocou o quê?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Turno, 7 horas da manhã. Eu estava no de zero hora.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Você saiu às 7?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Sete. Vou falar com vocês a verdade. Eu pedi a Deus e falei assim: "Ó, Deus, por que essa barragem não estourou de madrugada?" De madrugada matava eu e mais uns 15, sabe? Não matava tanta gente. (O orador se emociona.) O que me chateia é o seguinte. Faz uma acareação com a Cristina. Eu arrumo 15 ou 20 testemunhas aqui. A Cristina mandou mexer na barragem, colocar areia e brita! No outro dia, o que fizeram? Não, isso tem 20 testemunhas que trabalham na Vale. No outro dia isolaram o acesso da Barragem 6 e da Barragem 1. São os dois acessos que têm para a barragem. Um é em frente à ITM e o outro é na ponte ali; cercaram de lona; colocaram um gerador com refletor; contrataram uma empreiteira do dia para a noite, sendo que tudo depende de licitação. Eu não sei se foi pelo cartão corporativo, como é que fez, nem supervisor tinha acesso. E isso tem muita testemunha, só Deus sabe o que eles fizeram. Eles ficaram uns 5 dias ou 1 semana mexendo lá. Depois, sumiu tudo, ficou com gramadinho, tudo bonitinho. Foi igual ao que o pai falou: "Você tem a represa lá, tem 15, 20 metros de terra compactada, se brotou lama do lado de fora, isso quer dizer que, por dentro, já está tudo corroído". Até menino sabe disso. E foi no quarto banco, entendeu? Para cima, tinha mais não sei quantos bancos para cima, e a barragem era imensa. E a Cristina vem e fala que não interferiu? A Cristina mandou pôr areia e brita lá. O Rodriguinho buscou comigo, lá na ITM, areia e brita das obras que tinham lá, e eu arrumando manta geotêxtil para eles. A barragem estava na iminência de estourar 6 ou 7 meses atrás. E eles com medo de parar e perder emprego, olha no que deu! E por que agora estão isolando essas cidades todas e nunca isolaram? Eu só queria que fizessem uma acareação, se tivesse jeito, com a Cristina, se fosse possível, e trouxesse essa funcionária da (ininteligível), porque a turma falou que depõe tudo contra ela aqui nisso que aconteceu. E outra coisa: eu trabalhava na barragem. Nos últimos 4 anos, quem bombeou lama para a barragem fui eu, eu era o responsável pelo Complexo Barraginha. Ele mesmo passava direto lá e me via, olhava o negócio de água, o Marcão sabe também. O bombeamento de lá, eu que era o responsável pelo bombeamento. Se desse um cupim na barragem — um cupim! —, a Cristina lançava no sistema, se eu não me engano, que se chamava Geotec. Se eu não arrancasse esse cupim com 1 semana, o chefe meu falava assim: "Ô, Fernando, tem que arrancar ele de lá". E subia para o gerente de área. Se mais em 1 semana eu não arrancasse, subia para o geral, e ia subindo no sistema. Agora eu queria ver, agora que ficou de madrugada lá vazando lama, se tem, pelo menos, uma anotação de alguma coisa, se ela lançou no Geotec. E se não lançou, por que não lançou? Foi por medo do gerente, que morreu? Por que a Cristina não lançou, se a obrigação dela é analisar, fiscalizar e comunicar? Eu queria saber isso dela se vocês conseguissem essa resposta dela, se tem anotação ou não. No mais, é só isso.
15:36
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O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Fernando, eu lhe agradeço. Só para concluir, eu quero fazer uma pergunta antes de passar aos seus colegas. Você tinha trocado de turno, estava em casa descansando, e seu pai estava lá?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não. O que acontece? Seis ou sete meses atrás, antes de a barragem estourar, eu estava no turno de 16 horas a 1 hora da manhã. Por volta de 22 horas, estava lá a Cristina, porque eles trabalham só de dia, o trem era tão grave que estavam lá: a Cristina Malheiros; o Alano, que morreu na tragédia, era o Gerente Geral; e o Lúcio Medanha, que era o responsável técnico da mina, o braço direito do Alano. O que acontece? Eles não sabiam o que faziam, porque estava brotando lama, era muita lama.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Eu entendi. Eu quero saber se, no dia do crime, no dia do rompimento...
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não, no dia do rompimento, eu larguei às 7 horas da manhã.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - E o seu pai?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Meu pai trabalhava em horário administrativo. Ele estava tomando conta da infraestrutura da mina, desceu na hora de almoço. Eu fiquei sabendo que, na hora em que ele sentou para almoçar, estava ele e o Wesley Antonio, que faleceu também, os dois eram muito amigos. Ele tinha a mesma idade que eu, nós fomos criados juntos. Eu sei que morreu lá almoçando, tadinho, almoçando...
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Muito obrigado.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Está o.k.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Vamos ouvir os demais de uma vez, porque nós já aproveitamos e fazemos as perguntas para os três.
Sr. Elias, o senhor faça o juramento da mesma forma que o Fernando o fez. O senhor vai ter até 10 minutos para poder contar também a sua história.
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Faço, sob palavra de honra, a promessa de dizer a verdade do que souber e me for perguntado.
15:40
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O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Muito obrigado. Tem a palavra V.Sa.
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Eu que agradeço. Uma boa tarde. Meu nome é Elias, tenho 45 anos, trabalho na Vale já há 14 anos, pai de três filhos, e trabalhei por 7 anos na operação de mina, de equipamentos de mina, e atualmente eu estou na gerência de meio ambiente, que é na área de saneamento e de tratamento de água. E, como é uma empresa grande, então a gerência é tipo uma gerência de meio ambiente, mas é toda dividida, é subdividida. Quem trabalha com barragem trabalha só com barragem; quem trabalha com saneamento, que somos nós, e com tratamento de água, trabalha só com tratamento de água, no caso. E a gente não tem acesso a nenhum documento, a nada sobre barragem. Então, no dia do acidente, nós íamos fazer um trabalho na área de carregamento de vagão. O pessoal... É de costume a gente acompanhar as terceirizadas. O pessoal chegou por volta de 11h20min, mais ou menos. Nós entramos por... Pedi para eles passar pela portaria da empresa, aguardar do lado de dentro, e nós então nos deslocamos. Almoçamos e, após o almoço, nos deslocamos até a área de carregamento, que é mais ou menos a uns 500 a 600 metros da barragem. Então, antes de a gente, mesmo antes de a gente iniciar os trabalhos, houve aquela grande explosão. A gente ouviu aquela grande explosão, e tampou tudo de poeira. Naquele momento, eu pensei que fosse um descarrilhamento de vagão mesmo. Aí cheguei num ponto mais alto para tentar filmar, ou tirar foto, ou alguma coisa, e foi que eu vi que estava vindo aquele mar de lama. Aí então eu corri e gritei para os meus colegas que estavam comigo, o Sebastião e os outros dois lá da terceirizada, e falei: "Ó, gente, corre, que a barragem é que rompeu!" Entrei na caminhonete, fiquei esperando o Sebastião entrar. Ele tropeçou, caiu, aí ele entrou no carro, e a gente tentou sair por um lado ou por outro — no vídeo que correu no Brasil inteiro a gente vê —, tentou ir para um lado ou para o outro. Quando não deu, eu falei: "Agora é só aguardar mesmo". Só desliguei o carro, puxei o freio de estacionamento e falei para ele: "Entrega a alma para Deus, e vamos aguardar para ver o que vai dar". E ele falou: "Vamos orar o pai-nosso". Aí começamos a orar o pai-nosso, e nisso já veio, bateu do meu lado e levantou a caminhonete, veio, bateu do outro, e arremessou vagão, locomotiva, tudo próximo a nós. Aí, após isso aí, a gente já saiu. Aí que tudo passou, a gente já saiu do carro e já topou, à frente, com outros operadores. Tinha um operador de carregadeira pedindo socorro. E aí a gente, com as próprias mãos mesmo, a gente, tentando ajudar ele, conseguiu tirar ele de dentro da máquina, que é o Leandro. Aí, após isso, passados uns 20 ou uns 30 minutos, mais ou menos, chegou o pessoal do Corpo de Bombeiros, e a gente saiu da área, e fomos para um ponto de apoio. Mais ou menos, no dia, foi mais ou menos isso que aconteceu com a gente.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Só isso?! Quer dizer que aquela imagem que a gente vê, daquele cara tentando fugir com a caminhonete para cima e para baixo, e que a caminhonete para, e de repente a lama começa a empurrar ela para cima, você estava lá dentro?
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O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - É, era eu. Eu estava na direção, e o Sebastião estava como carona. E aquele rapaz lá que está sentado no chão é o rapaz que nós conseguimos tirar de dentro da carregadeira, porque ele estava pressionado por conta da estrutura da máquina e, tipo assim, tinha muita dificuldade para respirar. Então, a gente começou a cavar com as próprias mãos mesmo e conseguimos tirar ele de dentro da máquina. Tentamos, tipo assim, até outros que estavam, tipo assim, só com o braço do lado de fora, mas a gente chamava, mas já se encontrava em óbito, já estava morto. Então, já não tinha como fazer mais nada. A gente tentou andar por cima, assim, em cima das locomotivas, chamando, para ver se alguém respondia, para a gente tentar ajudar, mas aí que sobreviveram mesmo, daquele local onde a gente estava ali, foram só seis pessoas: foi eu, Sebastião, Leandro, o operador da carregadeira e os dois da empresa terceirizada.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Elias, que pai-nosso poderoso, hein?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - É, hoje, graças a Deus, tipo assim, nós somos um milagre vivo. Prova que Deus existe é porque nós somos um milagre vivo. Para mim, hoje, a oração do pai-nosso, ela tem muito valor mesmo. Para mim, é uma oração muito forte. Na hora dos momentos mais difíceis que eu acho que é a oração que a gente tem que pegar com Deus e estar fazendo ela mesmo.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Você vai respondendo aos colegas aqui. Veja se você pode contribuir mais com a gente. Muito obrigado. Era só isso?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Só isso mesmo.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Eu vou passar, então, agora para o Marco, para que ele preste o juramento e para que possa fazer também a sua explanação inicial.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Faço, sob a palavra de honra, a promessa de dizer a verdade do que souber e me for perguntado.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Marco, a palavra é sua.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Boa tarde a todos os senhores presentes. Meu nome é Marco Antonio, mais conhecido como Marcão, como o Fernando citou. Eu sou operador, mantenedor mecânico. A gente estava também no momento do rompimento. Eu estava na caminhonete que estava na parte de baixo, eu estava no restaurante, estava no quiosque, tinha acabado de almoçar. Vi todas as pessoas que estavam no restaurante. Tive contato até com o pai do Fernando. A gente brincou com ele. Então, assim... Eu estava realmente no momento. Quando Deus estava salvando o Elias lá em cima, Ele estava nos salvando lá embaixo. Então, ali eu estava tranquilo, não ouvi tremor, não ouvi barulho, porque o barulho, ele foi muito alto, mas não tinha como discernir barulho ali, no momento. Então, a gente viu porque um amigo que passou, o Marcos, ele passou, depois ele voltou correndo e gritou: "Corre!" E nisso, eu olhei e vi a água vindo por baixo, com barulho de mar, aí eu já escutei barulho, e depois eu escutei o barulho de estrondo, de desmonte. Aí não olhei para trás mais, eu só corri. E foi assim, gritando "Misericórdia, Jesus! Jesus!" e correndo. Caí. Eu já caí de ponta, levantando, a primeira vez que eu caí. O Wilson, a reportagem dele... assim... ficou uma imagem muito bonita dele que deixou o Brasil e o mundo impactado: foi quando ele cantou uma música no vestiário, quando eu estava tocando e cantando com ele. Aquilo foi 2 dias antes. Era aquilo sempre, a gente era, independentemente de estar na organização, de estar na empresa, a gente sempre brincava, a gente sempre cantava. E ali eu corri, caí, como eu disse, na segunda vez... eu continuei correndo, eu corri para o lado errado também, não foi para o lado que a gente foi treinado para correr, eu corri para baixo, sentindo a lama mesmo, e vinha dois postes e meio de altura, ali vinha galpão, oficina, a gente via caminhonete já, ali no meio daquela lama de dois postes e meio de altura, mas a uma distância, assim, de 100 metros. E depois disso, a gente pôde observar, somente na correria, porque era muita adrenalina, a face das pessoas. Eu falava com o Wilson: "Corre, irmão, vamos para cima, para cima". Nisso, eu caí. E eu caí, e o Wilson também caiu. Quando ele caiu, eu caí também, e nesse momento eu achei que eu ia morrer e, para mim, não tinha mais esperança. E eu — eu tenho família, tenho dois filhos — via a imagem deles, assim, e foi uma imagem... Para mim, eu estava esperando só a lama. E gritaram para mim: "Corre, caminhonete!" Nisso, eu levantei, o Wilson continuou deitado, e tinha um outro funcionário, que caiu também numa valeta, ele foi atravessar a valeta, e ele ficou do outro lado, que é o Edinei. E eu fiquei olhando para o Edinei, e ele para o Wilson, e nisso a lama não estava em ondas mais, ela estava, assim, íngreme, mas não tão íngreme. E eu não vi também ninguém morrendo, eu só vi tudo soterrado. O que eu vi aqui, por exemplo, depois eu não via mais. Mas não vi ninguém morrendo. E eles gritaram para mim: "Corre, caminhonete!" E nisso, eu corri, e peguei na perna de alguém, porque eu fui o último a chegar, peguei na perna do Marcos, que é o mesmo que falou comigo que era para correr, e segurei na perna dele, fiquei dependurado. E nisso, a gente teve uma outra, né... passei a lama, depois foi a questão de eu cair da caminhonete, de eu ser atropelado, e eu fui dependurado até uns 3 quilômetros. Passamos pelo viaduto, ainda não tinha caído, a pousada ainda estava lá, então, a gente passou ali no momento exato. E depois, a gente chegou lá em cima, ficou ilhado. E lá eu liguei para a minha família. E depois disso, a gente... Eu sou muito ligado a Deus, eu fiz uma oração, e pedi a Deus que me fortalecesse, para que eu voltasse lá embaixo. Voltei, e nisso a gente conseguiu ver mais gente lá da pousada. Tinha uma moça que ficava andando meio metro para lá e para cá, apavorada, a gente pegou ela. Pegou pessoas que estavam na piscina, família que estava comemorando aniversário na piscina, e assim, não estava em risco mais, mas estavam apavorados. A gente pegou essas pessoas e levou para local seguro, eu fui indo e voltando, o tempo todo. E ali, mesmo correndo, mesmo correndo daquela situação, nunca passava na minha cabeça que era a barragem. Eu pensava que era desmonte, eu pensava que era outra coisa. Para mim, era segura. E para todas as pessoas que estavam lá, inclusive gerente, era segura.
15:52
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Na minha cabeça, era segura. Portanto, no dia em que eu fiz o treinamento, que foi soada a sirene, e a gente teve o treinamento, se eu não me engano, foi em outubro, a gente fez o treinamento, a gente foi a pé. Eu até reclamei: "Ah, mas tinha que ir de carro. A pé, não tem jeito, não". Então, assim, e no dia não houve o acionamento da sirene. No dia, eu estava esperando, porque... Por isso eu falo que eu fiquei em dúvida se era mesmo a barragem, porque eu estava esperando o barulho, o acionar da sirene, por causa do treinamento. E a questão de correr para a parte que era segura, que a gente foi treinado, dos que correram para essa parte muitos morreram. Foram poucos que sobreviveram, que era a parte do antigo CEAN, que ali é onde realmente não foi afetado. E eu corri para baixo, para o lado errado, para o lado errado meu, mas o lado certo de Deus, e assim eu consegui um êxito porque Deus me guiou ali. Então, o que eu tenho a contribuir aqui é que eu corri, mas eu não sabia de quê. E eu me sentia seguro em relação à barragem. Mas também eu não imaginava, não imaginava nunca. E mesmo eu vendo ali sirenes, treinamento, eu não levei muito a sério aquilo. E eu agradeço a Deus por estar vivo, porque se não fosse milagre, eu não estaria aqui falando com vocês.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Muito obrigado, Marco. Ontem, nós tivemos uma sessão muito dura para nós aqui, à noite, e alguns Deputados ficaram surpresos com a nossa indignação com colegas que não querem votar os projetos. A vontade hoje minha, Deputado Vilson, Deputada Áurea, é que pudéssemos tirar aqui o broche e dar para vocês três irem lá no Plenário falarem isso que vocês estão falando aqui. Eu acho que os nossos colegas aí, os 500 precisavam ouvir, para poder sentir o mínimo daquilo que tentamos expressar, na nossa luta de ontem, do que vocês passaram, do que é a realidade, de querermos votar projetos para poder tornar essa questão de barragem mais segura e evitar que... Como aqui disse o Fernando e vocês: agora estão soando as sirenes, agora estão afastando as famílias, agora não sabe por que, toca para todo lugar. E vocês trabalhavam em mina. Eu nunca trabalhei, a minha formação é Direito. Advoguei no início da minha carreira, mas eu digo a vocês que estamos entendendo, sabemos que até agora, com todo esse processo, só não se tem mais rompimento nesse período porque não está chovendo. E vocês sabem do que eu estou falando. Aquele talude só está caindo aos poucos lá porque não está chovendo, lá em Barão de Cocais, e nós fomos lá. Nós não vimos o tamanho do talude da mina lá de vocês, da B1. Mas nós vimos o tamanho do talude da mina lá de Barão de Cocais, lá do Gongo Soco. E imaginamos o que tinha naquela hora para que vocês estivessem aqui. Eu queria muito que vocês pudessem ir ao Plenário para poder testemunhar para os nossos colegas, 500 Deputados que lá estão, para eles votarem o projeto, saberem o que é a questão de quem vive em torno disso, ou vive em função disso porque tem que trabalhar. Eu agradeço a contribuição de vocês três, vou passar a palavra direto agora para o Relator. Os nossos colegas Deputados todos que estão aqui... Chegou o Deputado Roberto Alves, que é de São Paulo. O Deputado André Janones é este que está à frente de vocês e é de Minas também. Nós vamos, aí, pedir a contribuição com aquilo que indagamos, o que vocês lembrarem, recordarem, puderem contribuir e responder para nós. Passo a palavra para o Relator, para que ele possa começar as indagações. Eu vou hoje tentar restringir o tempo, Relator, tirando V.Exa., que tem o prazo com os colegas, para podermos economizar e tentarmos lutar pela aprovação desses projetos aí. Muito obrigado.
15:56
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O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Sr. Presidente, eu vou antes passar a palavra para o Fernando Henrique, porque ele pediu para fazer um complemento.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - O complemento é o seguinte: se quiserem anotar os nomes, só para trazer aqui também, porque o pessoal... Esses aí participaram do evento lá. Falo, assim, do pessoal que mexia diretamente com a barragem e que atuou. Tem testemunhas. O que aconteceu pelo menos relatado, a Cristina devia ter relatado. Um cupim ela relatava, como é que um vazamento de lama num talude da barragem não tem relato nenhum, não tem anotação nenhuma? Se fosse possível isso...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Pois não, pode falar.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - É o Cidimar Moreira...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Cidimar.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Cidimar Moreira, conhecido como Cidão, estava no dia lá, de noite, lá; Marco Aurélio Amorim, que ajudou a colocar brita e areia na barragem, participou do evento lá, mora no Aranha; e Wagner Zacarias também, que ajudou a colocar areia e brita sob pedido. O supervisor que estava na hora lá: Renato Couto Figueiredo. Eles não têm culpa, porque eles não entendem de barragem, mas o gerente pediu para ir, eles têm que ir. Se não for, mandam embora.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Todos eles participaram.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Todos participaram. E quem buscou o meu pai lá em casa foi o Rodrigo da Silva Moreira, a pedido da Cristina, por causa do conhecimento do pai, para ver o que é que o pai falava. Aí você tem que falar com eles, porque eles estão trabalhando na Vale ainda, que, caso mentirem, eles correm... O Cidimar mesmo falou que conta a verdade. O Marco Aurélio conta a verdade, mas talvez o Rodrigo não conte. Esse Renato, que agora está como interino lá, talvez não deva... Mas vai dar confronto.
O SR. VILSON DA FETAEMG (PSB - MG) - Sr. Presidente...
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Antes do Relator, pergunto: vocês três são funcionários da Vale ainda?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Sim.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Somos.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Eu também.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Vocês vieram com advogado?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Sim.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Chegou um advogado agora me oferecendo, mas eu dispensei. Falei que não...
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - E o advogado é da Vale?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Sim.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Da Vale, mas eu dispensei. Falei que não queria.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Só isso. Obrigado.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Você está sem advogado?
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Você está sem advogado?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - É. Ele chegou me oferecendo aqui. Não entrou contato comigo nem nada. Falou que é advogado da Vale, eu falei que não preciso.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Está bom.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Não, é só para efeito, só para contextualizar, porque a gente tem que colocar a informação de quem é quem na CPI.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Outra coisa também. Não sei se foi informado aqui ou não, essa sirene que fica lá com o Presidente da Vale... Infelizmente, falou que ela foi engolfada. Ela fica lá no alto do talude, do stake. Está lá inteirinha, lá. Não foi engolfada coisa nenhuma. Está lá até hoje.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - É essa que a Defesa Civil fez teste esta semana?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - O que acontece? Hoje mesmo... Vou contar um caso que aconteceu hoje. A Barragem 6 é aquela paralela à Barragem 1. O que acontece? Antigamente, na Ferteco, a gente descartava material nela, rejeito, na ombreira esquerda dela. Esvaziaram ela, água. Mas o que acontece? Na ombreira esquerda dessa barragem — eu falo porque tem 18 anos que eu trabalho lá, desde a época da Ferteco —, ali tem mais de 50 metros de altura de rejeito. E hoje, o que acontece? Fizeram um teste na sirene hoje, às 10 horas da manhã. Vocês acham que foi à toa? Não foi, não. Um colega meu que trabalha lá — olha que coincidência! —, que se chama Marcos, me ligou e falou: "Fernando" — trabalhou comigo a vida inteira lá e agora está na empreiteira lá —, "eles vão começar a mexer aqui do lado aqui, na ombreira esquerda para tentar achar o dreno. "Eu falei: "Marquinho, se eles tentarem achar o dreno aí, pegar no dreno, aí tem 50 metros de altura em material". Você ir lá que vai ter um (ininteligível) tudo, também com draga lá e tudo. Lá tirou a água, mas a lama que está lá é de mais de 50 metros de altura. Se eles pegarem essa veia lá... Aí eu já avisei a Alessandra, já avisou o promotor, o pessoal, para a gente não ficar... Isso foi hoje. Se eles pegarem esse dreno lá, a barragem estoura e vai matar esses bombeiros tudo para baixo. Eu falo porque eu trabalhei lá, eu conheço, 18 anos lá, entendeu? Essa sirene não foi à toa, já foi de propósito. E eles vão mexer lá. Vão mexer e vão e escavar lá na ombreira esquerda da Barragem 6, que está inteira. Tem muita lama nela.
16:00
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O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Para que eles querem?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não sei. A informação chegou para mim hoje, eu passei para a Alessandra, Vereadora, que já passou para o Ministério Público e vai... É só para falar que não se avisou. Ela é menor, não vai afetar Brumadinho. Mas quem está embaixo, bombeiro, tudo, morre tudo, porque é muita lama, é muito rejeito em cima.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Esse dreno é da...
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - É da B6. Eles tentando achar aí. Se eles furarem esse dreno no pé dela, acabou, ninguém segura essa barragem, não. De água, está vazia, igual à Barragem 1. Não tinha água nenhuma nela, não. Por baixo é que fica a lama.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Na B6 eles estavam mexendo nesse dreno por quê? Eles estão com medo de ela romper?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não. Segundo o Marcos, colega meu, no DSS hoje, falou que vai mexer no dreno dela, no pé dela...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Da B6.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Da B6, na ombreira esquerda. Ele falou assim: " Ô, Fernando, aqui não tem um dreno, não?" Eu falei: "Marquinho, não pode nem pensar em mexer aí, cara". Do lado, na ombreira esquerda, onde a gente descartava o rejeito. Da ombreira direita, onde a gente retirava a água para beneficiar o minério. Do lado de lá esvaziou, está baixo. Do lado de cá, se vocês forem lá, vocês vão ver que ela está alta, até no talo, de lama, quer dizer, essa lama está forçando ali. Se pegar o dreno dela ali, ela vai embora.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Agora, você sabe por quê?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Ele me mandou foto aqui, mandou vídeo.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Eles hoje acionaram a sirene?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Acionou a sirene hoje. Falou que é para teste, mas não é, é porque vão mexer lá. Falou no DSS que...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - E para que vão mexer nessa barragem?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não sei, me mandaram foto aqui e tudo.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Mas ela está paralisada. Não tem...
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - É, só que essa parte da ombreira esquerda dela é a mais perigosa, porque ela está cheia de lama. Desde a época da Ferteco não joga mais, não.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Tá.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Só que a lama está lá. E é muita, não é pouca, não.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Às vezes está com risco de...
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não. O pessoal que está fazendo resgate embaixo, por ela ser menor que a B1, não vai chegar a Brumadinho, por exemplo. Mas o pessoal que está embaixo morre tudo.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - O.k.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Mas já foi passado para a Alessandra, para o Ministério Público lá.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Dra. Andressa, do Ministério Público.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não sei quem é. Não sei. Passou para o Ministério Público e para os responsáveis. Vamos ver o que acontece.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Tá. Isso é importante, Presidente, porque...
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Se estourar...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Sabe-se lá por que estão mexendo nessa barragem, não é? Se está com risco de romper... Para que estão mexendo lá? Fernando, deixe-me fazer algumas perguntas a vocês, para vocês nos ajudarem nisso. Primeiro, só antes de entrar na pergunta, eu queria fazer uma proposta, Presidente, no rumo que V.Exa. aqui colocou, e muito corretamente. Não há hipótese de a Câmara Federal não aprovar os projetos, depois dessa tragédia criminosa de Brumadinho, que veio depois da tragédia criminosa de Mariana, e nós não mexermos na legislação brasileira. Na legislação de crime, na legislação fiscal, na legislação para os atingidos por barragens, na legislação trabalhista, para assegurar direitos, não é possível não mexer. Então, nós apresentamos, como o Deputado Júlio Delgado colocou, seis eixos de projeto de lei muito importantes.
16:04
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Nós estamos numa batalha para aprovar esse projeto de lei. Hoje, nosso Presidente Júlio Delgado já entrou em contato com Deputados e Lideranças do Governo e também com o próprio Presidente da Câmara. Sempre temos a esperança de que isso vai ser aprovado, porque não passa pela nossa cabeça a Câmara, depois disso, não aprovar modificações que deem segurança às pessoas, ao meio ambiente. Então, estamos nessa batalha para aprovar.
Mas eu queria deixar uma proposta: se isso não andar nesta semana, Presidente, no máximo na semana que vem, que convoquemos um grande ato. Vamos fazer um esforço, vamos trazer o pessoal de Brumadinho, de outras regiões, de Barão de Cocais, vamos fazer um grande ato aqui, vamos colocar inclusive o que vocês três disseram num telão aqui, porque os Deputados precisam entender o que aconteceu e qual foi o tamanho dessa tragédia.
Então, faço esta proposta na reunião da CPI: se nós não aprovarmos isso até semana que vem, que marquemos aqui um grande ato, que façamos um esforço para trazer os atingidos de Minas Gerais inteiro para ver se aprovamos esse projeto de lei. O compromisso, talvez, principal que a nossa CPI tem é aprovar esse projeto de lei. O compromisso que nós fizemos com a Comissão Externa foi de que nós íamos trabalhar para aprovar esse projeto de lei. Essa é uma proposta que eu já queria deixar para o Presidente.
A segunda é dizer também ao Fernando, ao Elias e ao Marco Antonio: fiquem tranquilos, porque isso aqui não vai dar em pizza, não. Nós estamos olhando tudo o que é possível, trabalhando junto com a força-tarefa, o Ministério Público, a Polícia Federal, o Ministério Público Estadual. E, por mais que a Vale esconda dados — e ela esconde, e coloca pessoas para esconder, nós sabemos disso, é a realidade dos fatos —, nós temos como fazer essa apuração e estamos trabalhando juntos, tanto a CPI aqui quanto a CPI da Assembleia Legislativa e a força-tarefa. Isso é para vocês saberem que nós estamos aqui empenhados nisso. E o nosso relatório vai ser um relatório muito fidedigno ao que aconteceu.
Pois não, Fernando.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - É só uma questão também. Podia trazer especialista em barragem e perguntar, por exemplo... A lama rompeu, o que represa ela começou a vazar na grama. Podia trazer um especialista, trazer a Cristina e trazer a testemunha. Quer prova maior que essa de que a Vale sabia que a barragem ia estourar? Até menino sabe que, se a lama saiu para fora daquele negócio, por dentro já está tudo corrompido — até menino! Tem testemunha, tem tudo lá. Funcionário da Vale falou que vem aqui prestar depoimento. Não precisa de prova maior que isso. Agora falar que a Vale não sabia? Se isso não for prova, o que vai ser prova?
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Então, nós vamos pegar a testemunha, inclusive passar para a força-tarefa. E nós também vamos pegar o testemunho do Cidimar, que você citou, do Marco Aurélio, do Wagner, do Renato e do Rodrigo, pelo menos desses. Nós precisamos também ter essa comprovação do que você nos disse. Quer dizer, estava vazando lama na própria barragem.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - No talude, debaixo da barragem.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Você viu esse vazamento, essa lama?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Eu estava na ETM na hora. A ETM estava rodando. Mas o que acontece? Esse pessoal não tem conhecimento de barragens, eles são de processo. E a Cristina não pode atuar na barragem. Ela deve analisar, fiscalizar e comunicar. Eu quero saber também se a Cristina fez algum registro, porque o cupim, eu trabalhava lá, o cupim que dava lá eu tinha que arrancar com uma semana. Ela lançava no sistema, o chefe meu vinha e punha em mim. E um negócio desse, em que ela ficou de madrugada, vazando lama, perigoso, no outro dia, cercou e nem supervisor tinha acesso.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Esse cerco que ela fez foi com brita e areia?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não, levaram brita e areia na caminhonete, igual doido, e manta geotêxtil, que a gente chama de Bidim, para filtrar. No outro dia, cercou o acesso, nem supervisor, nem ninguém entrava.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Isso foi 6 meses, 7 meses antes?
16:08
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O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Seis, sete meses atrás. E o pai os avisou, falou assim: "Gente, tem que tirar o pessoal do Córrego do Feijão daí debaixo". Eles falaram: "Mas aqui gera muito emprego, não sei o quê, nós vamos contratar a empresa". E contrataram mesmo do dia para a noite, não sei como.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Qual o nome do seu pai mesmo?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Olavo Henrique Coelho.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Olavo Henrique Coelho.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - A referência, se quiser, pode pedir ao Vanderlei de Castro, que era o gerente de lá que saiu, ao Anderson Belino. Todo problema grave que acontecia e o pessoal não resolvia, eles o chamavam, porque ele trabalhou lá a vida inteira. O Marcão o conhecia, não é, Marcão? Todo mundo o conhecia. Ele era referência na unidade.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Marcão e Elias, querendo complementar alguma coisa que vocês lembrarem, fiquem à vontade, viu? Se quiserem, vocês podem pedir a palavra para complementar. Às vezes, há alguma coisa que vocês lembraram. Fiquem à vontade e podem ir complementando, porque é importante sabermos.
Fernando, diga-me o seguinte: então, 6 meses, 7 meses atrás, isso é um fato importante, vocês presenciaram que havia vazamento de lama, que foram colocados operários e que foi contratada uma empresa para tentar sanar esse problema através de brita, areia e...
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Isso. Do vazamento nós tomamos ciência às 10 horas da noite. Estava a Cristina, o falecido Alano e o Lúcio Mendanha. Mandaram buscar meu pai lá em casa. Aí levaram o Rodriguinho. O Rodriguinho, na caminhonete, buscou meu pai, me chamou no rádio e perguntou se tinha areia e brita na ETM. Eu falei: "Tem". Toda hora, enchia a caminhonete de areia, brita e Bidim para ver se tampava a lama. No outro dia, fechou o acesso, colocou gerador com luminária, empreiteira mexendo 24 horas, ninguém tinha acesso, mexeu de 5 a 7 dias, ninguém sabe o que se fez, e o pai avisou a eles: "Está condenada". Isso foi no quarto banco.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Isso foi, mais ou menos, em junho de 2018.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Foi 6, 7 meses atrás. A data precisa eu não sei, não.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Em junho de 2018.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Tem até no meu depoimento que fiz no Ministério Público, 3 dias após o rompimento.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Na barragem, algum tipo de obra estava sendo feita lá ou estavam utilizando a barragem?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não, faz 18 anos que trabalho naquela barragem. A única coisa que tinha naquela barragem era vaca. No dia que estourou, estavam 30, 40 pessoas lá; perfuratriz fazendo furo de HP, na horizontal, isso nunca existiu. É porque os drenos não estavam dando conta da vazão. No fundo da barragem, existe um dreno que se chama dreno de fundo. Você vai lá e mede sempre a vazão, se está aumentando ou diminuindo. Ele estava diminuindo. Quer dizer, a água minava nela, porque lá tem mina, sim. Eu nasci lá. Quando eu nasci, tinham três bancos só, eu pescava naquela barragem. Eu nasci ali dentro. Ali, mina água. Se a água não sair, ela tenta ir para cima. E, como para cima só tinha minério seco, o que ela faz? Ela força para o talude. Você tem o talude aqui, 15 ou 20 metros, por exemplo. Se a lama vazou isso aqui, por dentro já está tudo comido, até menino sabe disso. Se isso não for prova, chama a Cristina aqui, chama o especialista aqui.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Então, na barragem não tinha mais nada há muito tempo. Eles tinham paralisado qualquer atividade?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não, desde 2015. Se não me engano, em julho eu parei de bombear lama para ela, logo após Mariana, porque era o mesmo formato de Mariana. Só que acontece que a barragem é um corpo vivo, ela continua funcionando, e cinco piezômetros deram problema, que eles colocaram eletrônico. Aí falaram que o piezômetro estava dando problema. Na verdade, não era, ele estava avisando que a pressão aumentou. Aí está falando que é problema no piezômetro. Que problema no piezômetro?
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - E o radar, havia também um radar, um rapaz, o Tércio, que trabalhava com o radar.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - A gente chama de espelho. Se a barragem arredar, acho, 1 milímetro, questão de milímetro, ela dispara. Como ela já estava movimentando, eles desligaram, colocaram acionamento, se eu não me engano, na sala de controle, manual. Porque com o acionamento mesmo de sirene, igual o Presidente da Vale falou que foi engolido, gastou não sei se foi 200 milhões ou 20 milhões, eu acho, se não me engano. Até menino, se for... Até um servente, não desfazendo do cargo... Mas, se você for montar um sistema de sirene, você vai montar embaixo da barragem? E se ela estourar? Você imagine a engenharia e tudo. O sistema está lá no alto, até hoje inteiro, está inteirinho lá. Ele estava desativado. Isso é mentira.
16:12
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O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Explique-me outra questão. A mina continuava funcionando. A mina tem qual distância da barragem?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - A mina é o seguinte: o minério vinha na Mina de Jangada. Tinha a Mina de Jangada e a de Feijão. A gente retirava o minério mais da de Jangada, porque a de Feijão já estava no final, já estava bem afunilada. A mina é mais para cima da Barragem 6, a de Feijão. A de Jangada já é do outro lado. A usina mesmo, a parte da usina da ETM que foi afetada, era a parte que era úmida, que a gente não usava mais. Se precisar rodar lá hoje e pôr para funcionar, eu ponho aquelas usinas tudo para funcionar do jeito que era. Só não tem terminal de carga, mas... O que afetou na usina mesmo, na ETM, foi mais a parte úmida que estava desativada.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Tá. Agora eles usavam explosivos lá na Mina de Jangada? Na de Feijão estavam usando ainda?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Aí é que tá. Desde quando eu morei lá, a detonação sempre foi de 12h20min a 12h30min. Não sei se foi num relatório de alguma empresa de negócio, não sei se foi a TÜV SÜD ou outra, que falou para não ter detonação. Estourou logo nesse momento de meio-dia. Às vezes já estava para estourar. Não foi a detonação que a estourou. Ela já estava, mas na hora que detonou... Eu não sei se detonou, às vezes eles estão escondendo. Logo que detonou, ela tremeu. A detonação sempre foi nesse horário de 12h20min ou 13 horas.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - A que horas a barragem rompeu?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Pela câmera, tem que ver se o horário da câmera está certo, 12h28min.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - É algo a verificar se o explosivo pode ter tido algum tipo de gatilho, pela fragilidade já da barragem.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não por causa do explosivo, porque ela...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Porque ela já estava fragilizada.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Se eu não me engano, tem uma recomendação de uma auditora, só não sei qual.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - TÜV SÜD.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não sei se foi a TÜV SÜD ou a outra, para não ter abalo sísmico nem negócio. Só não sei qual foi.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Qual a distância entre onde tinha o explosivo e a barragem?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não sei informar o correto. Se eu falar aqui, eu estou supondo.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Mais ou menos... Vocês sabem a distância mais ou menos entre onde tinha explosivo e a barragem?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Ao certo também não sei informar, não. Mas é uma distância, de Jangada até a Mina de Feijão dá uma distância bem...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Bem grande.
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Deve dar quase 12 quilômetros, não é?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Mas é...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - E a do Feijão? Na Mina do Feijão tinha explosivo também?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Não. Na Mina do Feijão, eu não sei te informar se lá tinha detonação. Eu sou de outra área, então eu não tenho informação sobres esses dados.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Eu nasci ali dentro. Ali tinha uma vila com 96 casas, abaixo da barragem. Sempre que detonava — a gente já era até acostumado —, a casa tremia toda, o vidro quebrava, mas não caia, não, tremia. Imagine a barragem que é mais para cima um pouco. Às vezes estava para estourar. Um pouquinho que vibrou, para ela descer daquele jeito foi na... Não tem como descer assim...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Pode ter sido algum gatilho. Esse tem que ser estudado, é claro.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Isso.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Isso tem que ver, porque a Polícia Civil e a Polícia Federal estão fazendo o exame, vão ter um laudo posteriormente disso. Mas é importante que isso seja verificado, pois é uma hipótese.
16:16
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O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - É só chamar o especialista aqui, o pessoal que participou, é simples, alguém especialista em barragem e falar assim: "Começou a brotar lama — e não foi pouca, não, foi muita — na grama da barragem, no talude, no quarto banco, na ombreira esquerda, do centro para a ombreira esquerda". Se vazou, é porque, por dentro, já está tudo comido. Qualquer especialista...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - E caminhão, máquina pesada, havia isso próximo da barragem?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não, não, só caminhonete mesmo.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Só caminhonete.
Você falou que a Cristina tinha responsabilidade como engenheira. Ela era responsável pela análise da barragem, pela fiscalização.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Segundo eu fiquei sabendo, pela análise, fiscalização e comunicação também.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Vocês têm condições de me dizer se ela repassava isso para outras instâncias superiores da Vale ou se isso era apenas responsabilidade dela?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Como eu falei, eu trabalhava num complexo ali chamado Complexo Barraginha, onde existiam as baias de decantação de concentrado. Quando funcionava a úmido, que tinha o rejeito, eu que era responsável pelos dois bombeamentos, bombeamento A e bombeamento C. Eram três bombas de polpa enormes: bomba TPBGBA, TPBGB, TPBGC e TPBGC1, C2 e C3. Davam 2 a 3 quilos de pressão, tubulação grande, cheio de descarga lá em cima. Era eu que olhava. Se desse uma árvore lá, ela lançava no sistema que tinha uma água. Eu tinha o prazo de uma semana, porque o meu chefe vinha em mim. Se eu não cortasse a árvore, o Sistema GEOTEC lançava o e-mail para o gerente e daí ia subindo. Eu quero saber, por exemplo, da lama, que foi muito mais grave do que uma árvore, do que um cupim, se pelo menos ela registrou, porque tem que ter o registro, não é? Ou por que ela não comunicou.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - É, se há uma empreiteira que foi contratada depois, com certeza, ela não fez isso sozinha, não é?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não, mas eu falo assim: tem que ter o registro de comunicação do serviço que foi feito, o que foi feito, por que ela não registrou. Se registrou, cadê o registro?
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Sobre essa questão do vazamento da lama, vocês também tinham conhecimento, gente?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Olha, como eu falei, eu trabalho em saneamento, trabalho com tratamento de água. Então, a nossa estação de tratamento era do lado da barragem. A gente passava perto dessa barragem, às vezes, duas a três vezes por dia, no pé da barragem. E, tipo assim, não sei, às vezes, por eu não ser especialista em barragem, não conhecer sobre barragem, nunca reparei nisso. Mesmo se eu tivesse reparado, eu não ia passar, não ia passar num local desses. Tipo assim, eu não reparava nisso. Eu passava lá duas a três vezes ao dia às vezes.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Mas o lugar que ele passava não era do dreno central e ombreira esquerda, não, porque o tratamento de água é na direita, tinha uma estrada paralela por fora da barragem.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - É nesse ponto que vocês viam essa lama?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Depois que vimos isso, o acesso ficou isolado no outro dia, nem supervisor entrava lá, não, nem supervisor entrava. Disso aí tem 20 testemunhas, funcionários da Vale que podem vir aqui...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Fernando, houve uma história de um dreno. A Vale estava colocando drenos horizontais...
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - O DHP.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - O DHP. Eram drenos horizontais profundos. Iam colocar 30 drenos. Chegaram a instalar 14 drenos, mas o 15º deu um problema. Esse problema — dizem eles — foi sanado. Você se lembra do que aconteceu com esse dreno e se, a partir daí, a barragem correu mais risco? Qual é a sua análise disso?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - O problema maior acho que foi esse negócio aí que aconteceu 7 meses atrás. Mas esse dreno também deu problema, porque é o seguinte: a haste quebrou, e a lama começou a vazar. E eles custaram a vedar ele, não sei nem como é que vedou, porque a pressão era tanta, aí foi e interrompeu esse processo. E nunca na vida... Quer dizer, começou a fazer esses drenos porque o dreno natural dela já não estava dando vazão, e o lençol freático ninguém segura, ele joga para cima. Para cima, o minério está seco. O que ele vai fazer? Ele vai forçá-la contra o talude.
16:20
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O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Depois desse problema que deu no dreno, eles não colocaram outros drenos horizontais nem fizeram perfuração vertical?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - O que acontece: no dia do estouro, lá no centro do vídeo, você pode ver que tem uma perfuratriz pequena. Esqueci até o nome da firma, até ela fez relato lá e tudo. A perfuratriz estava lá no meio da barragem acho que com três ou quatro funcionários, três, um tinha saído pra fora. Estava lá a perfuratriz, uma miniperfuratriz. Agora quero perguntar aqui também para o Elias: Elias, você já viu aquele tanto de gente em cima daquela barragem igual aquele dia? Fala a verdade. Você viu o vídeo dela estourando?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Não, eu vi o vídeo, mas...
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Você já viu aquele tanto de gente em cima daquela barragem? Fala a verdade.
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Não, não, não lembro. A questão dos drenos, realmente o pessoal estava... Tipo assim, estava essa atuação de dreno, fazendo dreno mesmo, mas, para mim, era normal. Para mim, no meu pensar, era normal que na barragem fizesse dreno.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Eu falo assim: aquele tanto de gente, 30, 40 pessoas em cima daquela barragem ali, você viu no vídeo?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Não.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Depois repare no vídeo para você ver. Porque ali só tinha vaca, você lembra?
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Mas ele está perguntando se era normal todo dia ter 30, 40 pessoas lá.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não tinha ninguém lá, não.
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Mas eu não reparei nesse tanto de pessoas em cima da barragem.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Nunca teve, não.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Mas normalmente não tinha pessoas em cima da barragem?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Não, não.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Nesse dia, havia umas 30, 40 pessoas?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Tinha era vaca e cavalo. No vídeo lá você vê aquele tanto de gente correndo. Quer dizer, não é normal. Faz 18 anos que eu mexo ali.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - A pergunta é: o que faziam essas pessoas lá?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - É porque estava com problema, e eles sabiam. Não existe isso, não. Porque, de uma hora para outra, vai ter que...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Tanta gente lá trabalhando em cima da barragem!
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não tinha. Tinha era vaca, cavalo. Eu tinha que tocar eles para fora, abrir cerca para colocá-los para fora.
A SRA. PRESIDENTE (Áurea Carolina. PSOL - MG) - Deputado Rogério Correia...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Pois, não, Deputada Áurea Carolina.
A SRA. PRESIDENTE (Áurea Carolina. PSOL - MG) - Deputado Rogério Correia, Relator desta CPI, eu estou aqui substituindo rapidamente o Deputado Júlio Delgado, o nosso Presidente. Também faço parte do colegiado da CPI e pedi a palavra um pouquinho aqui, porque vou precisar sair para presidir a finalização de uma audiência pública sobre autismo, que também é uma situação muito delicada e importante que merece a atenção da sociedade brasileira e do Parlamento.
Mas eu não poderia sair antes de manifestar o meu profundo pesar, Fernando, Elias e Marcão, por toda essa situação. Eu sinto muito, eu sinto profundamente, apesar de não ter testemunhado, de não ter estado lá perto de vocês, mas a dor de vocês me comove. E essa dor precisa comover os Deputados da Câmara dos Deputados, precisa comover os Senadores do nosso Senado Federal. Essa dor precisa orientar também o nosso trabalho técnico, político, porque a grande maioria dos Parlamentares aqui não tem noção nenhuma do que aconteceu em Brumadinho e não tem sensibilidade para esse problema que estamos tratando aqui.
Ontem, como o Deputado Júlio Delgado disse, foi uma sessão duríssima, muito difícil, porque estamos numa peleja para tentar aprovar o novo marco regulatório da mineração no Brasil para que esses crimes não se repitam, para que a mineração seja uma atividade mais segura, mais responsável.
Eu fico abismada de ver aqui como vocês, trabalhadores experientes, que estavam há anos nessa empresa, não tiveram um treinamento adequado para poderem escapar em caso de rompimento. Foi por milagre, foi por instinto, foi por algo que não conseguimos explicar. Não foi pela preparação técnica, correta, que a empresa, por obrigação, deveria prestar a todos os seus funcionários.
16:24
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Também me preocupa toda a informação que foi trazida aqui pelo Fernando sobre a movimentação, que já ocorria meses antes, e que a Vale tratou de ocultar aqui, Deputado Rogério Correia. Em todos os testemunhos, os depoimentos que os funcionários de alto escalão da Vale prestaram aqui, em hora nenhuma eles reconhecem que já havia todo um processo desandado, com ameaça de rompimento da barragem, e eles estão tentando tapar o sol com a peneira.
Além da questão dos explosivos, lá em Jangada, que é algo que precisa ser verificado na investigação criminal, eu não sei se a questão dos carregamentos, numa distância de 500 metros a 600 metros da barragem, como o Sr. Elias falou, poderia afetar de alguma maneira, ainda que minimamente, uma estrutura que já estava condenada. Isso não teria nenhuma relação, teriam que ser abalos muito mais fortes, muito mais substantivos, não é?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - O carregamento em si não tem abalo.
A SRA. PRESIDENTE (Áurea Carolina. PSOL - MG) - Perfeitamente. De qualquer maneira, eu quero também aqui me solidarizar com vocês, que perderam colegas de trabalho, companheiros, amigos, familiares. Eu sinto muito pela perda do seu pai, Fernando. Essa dor não pode ser em vão. Tudo isso precisa significar seriamente um compromisso do Parlamento brasileiro, das instituições, da sociedade civil, para que haja uma superação desse modelo trágico, para que essas tragédias reincidentes sejam, de fato, interrompidas, porque são crimes premeditados. Não pode ser um crime apenas por omissão ou por negligência. É um crime premeditado, porque, de fato, fizeram tratativas, tomaram providências e escamotearam tudo isso das autoridades públicas e estão tentando esconder tudo isso no processo de investigação levado a cabo aqui por nós, em colaboração, evidentemente, com as instituições que têm essa competência direta com a força-tarefa.
Então, quero aqui reiterar o nosso compromisso para que nós não só avancemos no processo de apuração e responsabilização dos culpados, mas também tenhamos a aprovação do novo marco regulatório também, para que os trabalhadores sejam protegidos, para que as comunidades atingidas tenham os seus direitos assegurados, para que todas as normas mais seguras, mais avançadas de monitoramento, controle e segurança de barragens sejam seguidas e para que o lucro não fale mais do que a vida das pessoas.
Com essas palavras, eu peço licença para me retirar e convido o Deputado André Janones, que é o sub-Relator da nossa Comissão, para assumir a nossa Mesa.
Muito obrigada.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Enquanto o André se aproxima, eu vou fazer mais algumas perguntas, algumas poucas perguntas. Depois o próprio André também, com certeza, vai nos ajudar nas perguntas aos nossos convidados. Havia lá treinamento sistemático para situação de emergência? Quantas vezes vocês participaram de treinamento? É uma pergunta ao Elias.
16:28
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O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Como até o Marco mesmo citou, esse treinamento ocorreu, mais ou menos, em meados de outubro do ano passado. Nós tivemos treinamento, tipo assim, com acionamento de sirene, mas não da sirene; foi uma sirene manual, para simulado mesmo. Foi usada a sirene manual. E tivemos pontos de apoio, tipo assim, os líderes que ficaram... Cada líder ia ficar por conta de um ponto de apoio. Aí, tipo assim, foi acionada a sirene, todo mundo se deslocou de forma ordeira até atingir os pontos que seriam seguros em caso de rompimento de barragem.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Foi só em outubro que houve esse treinamento? Ou vocês participaram de outros?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Não, nós participamos de outros treinamentos de barragem, mas não simulados. A gente participou em treinamentos, por exemplo, dentro de sala, que falavam sobre barragem. Mas simulado mesmo foi esse em outubro.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Simulado só esse em outubro.
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Isso. Teve uma parte que foi em sala, e a outra parte foi mesmo na prática.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - E eles justificaram por que estavam fazendo aquele treinamento?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Não, não foi justificado.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Não justificaram nada?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Não.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - O único treinamento que vocês fizeram foi esse em outubro?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Em outubro do ano passado nós fizemos um treinamento, um simulado de barragem, em caso de rompimento de barragem.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Eu volto à questão do dreno, esse dreno que deu problema, o tal do 15º dreno. Vocês estavam lá? Presenciaram? Tiveram conhecimento?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Não. Eu, pelo menos, não tive conhecimento, porque não é a minha área, como eu falei. A minha área é de tratamento de água. Então, eu trabalho com tratamento de água.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Certo. O Marco Aurélio teve?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Então, a gente não tem informação a respeito desse tipo de atividade.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - É Marco Aurélio, não é?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Marco Antonio.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Marco Antonio! Desculpe, Marco Antonio.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Essa situação realmente ocorreu, porque ele falou mais tecnicamente, ele explicou aí o horário. A gente viu essa situação, mas é como eu disse, eu não entendi. Para mim, era seguro. Então, é aquilo, talvez tenha uma pessoa que está aqui e vai matar todo mundo, mas a gente não sabe quem é que é. E ali era isso. Para mim era isso, porque eu não tinha maldade. Para mim, realmente, eu estava ali, eu via. Eu cheguei a comentar por que estava se gastando tanto, porque, assim, foi gasto um dinheiro lá para um reparo, e a gente não sabe por que...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Esse reparo de que você fala é o quê?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Foi a empresa Reframax que fez. Eu achei que até ficou muito bonito, e, assim, eu cheguei a elogiar, porque...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Explica, então, Marco Antonio, para a gente, para eu entender, que tipo de obra foi feita pela empresa e qual o nome dela, por favor.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - É como eu falo: eu via essa obra, mas eu não sabia por quê. E, assim, era nesse local que o Fernando falou, que era a parte da drenagem, que descia material. E, assim, a gente não tinha noção. Eu...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - E como se chamava a empresa?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Reframax.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Reframax. Vocês tinham acesso a essa área?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Tínhamos. Poderíamos ver, passar, não tinha nada a ver. Mas que a empresa estava lá, ela fez os trabalhos, isso foi feito.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Você sabe especificar que trabalho era? Era dreno?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Não tem como eu especificar, porque eu passava só.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Só passava.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Como o Fernando falou, não era proibido ir, passar — eu passava —, mas, realmente...
16:32
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O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Tinha essa empresa trabalhando lá.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Tinha. É. E, assim, tinha realmente essa situação ali, e eu via, mas eu não... Para mim, como eu sempre falei, para mim, era seguro, porque ela era seca, como o Fernando falou. Ela era... Vaca ficava andando em cima dela e pessoas trabalhando, como estava lá. E eu posso observar que depois do rompimento da barragem de Mariana, houve um carinho maior com ela. Assim, independentemente de qualquer coisa, de ela estar parada, houve um carinho maior com ela, mas, assim, em momento algum eu acreditava que ela ia estourar.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Bem, então, o treinamento vocês fizeram em outubro.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Exatamente. A gente fez...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Foi o único treinamento que vocês fizeram?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Não, a gente fez treinamento em sala também.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Não, em sala. Eu digo...
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Falava-se muito de barragem nos treinamentos de sala. Tem até registro que a gente assina.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Sim.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Mas é um treinamento...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Simulado foi só essa vez?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Exatamente. É um treinamento mais prático, que foi esse que... Eu esqueci até de citar a sirene que foi feita, manual. Cada líder tinha uma sirene manual, e a gente acompanhava esse líder com a sirene manual. Acionou uma sirene, e essas outras sirenes manuais, a gente acompanhava os líderes...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Você já mencionou que, na hora do aperto, em vez de você ir para o local determinado no treinamento, você correu para o outro e conseguiu agarrar na perna de alguém.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Eu corri para o lado que... não o meu lado, não o lado correto, mas o lado que...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - O lado por que passou a caminhonete. Acabou sendo o correto, não é?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Para mim...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Você correu para o lado correto, não é?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Exatamente.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - O outro era errado. E aí você agarrou a perna de alguém numa caminhonete.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Exato.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - E foi arrastado uns 3 quilômetros?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Não fui arrastado, porque eu levantei a perna.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Você levantou...
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - A gente, graças a Deus, está com saúde, segurou bem.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Nossa senhora!
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Deus nos deu a oportunidade de estar aqui, e a gente tem falado desse milagre. Igual agora, por exemplo, a gente vem falando aqui o que a gente viu realmente. Mas, realmente, a gente não tinha noção. Ninguém tinha noção. Portanto, eu falo, eu não tenho medo de falar. Eu prefiro tirar rico, pobre, de frente, debaixo das barragens, xingando, falando o que quiser. Mas eu prefiro tirar vivo do que ver meus amigos lá e eu não ver mais meus amigos. Então, eu prefiro fazer isso, tirar todo mundo, mesmo xingando, debaixo das barragens, porque as barragens já estão lá. As barragens estão lá, igual a essas que estavam lá seguras. Então, assim, há um comprometimento já de tirar, descomissionar as barragens. Assim, que sejam descomissionadas com o maior cuidado, porque o Fernando citou que é um trabalho muito perigoso. Então, não é assim de uma vez. Mas que seja realmente revista essa questão das pessoas. Para mim, é isso.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Essa empresa que o Marcão citou é a mesma empresa que estava trabalhando nesse outro caso que você falou, depois que eles...
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não. Tem a Reframax... Eu tenho que olhar aqui o nome da outra. O da perfuratriz eu acho que é outra.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Não, eu digo essa em que você diz que, no dia que deu problema, eles começaram a colocar brita e areia e depois contrataram uma empresa.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Ah, não, aí ninguém sabe. O que acontece...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Você não sabe o nome da empresa?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não. Isolaram os dois acessos, que são pela ETM... A Barragem 1 tem dois acessos: um em frente à ETM, em frente à Baia 1, e um pela Barragem B6, que é aquela barragem paralela a ela, que não estourou. Fecharam ali com (ininteligível), colocaram uma lona, um gerador e refletor e contrataram uma empreiteira do dia para a noite. Foi um dia antes de levarem meu pai lá.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Certo.
16:36
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O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - A gente ficou de 5 a 7 dias mexendo e ninguém sabe. Depois voltou lá com grama plantada. A lama que estava brotando ninguém sabe para onde foi. Só Deus sabe o que aconteceu. Aí, depois disso, começou o treinamento. Instalou-se sirene. Outra coisa, o treinamento — né, Marcão? —, o treinamento foi lá na Valer, próximo ao escritório, próximo ao restaurante. Foi até a Cristina Malheiros que deu o treinamento. E é ela que mostrou para nós o mapa certinho de onde a lama ia passar, a mancha. Ela falou: "Se estourar agora, aqui não sobra nenhum", quer dizer, por que é que não mudou, cara? Para a Vale não era nada. Por que é que não mudou isso lá para cima, lá para Jangada, sendo que lá já tinha escritório e tudo? Lá tem restaurante grande, cara! Por que é que não mudou o pessoal lá para cima? Eu não entendo, entendeu? Eu não entendo isso.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Você acha que esse treinamento que eles fizeram em outubro já era um sinal de que a Vale tinha conhecimento de alguma coisa?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Nunca fizeram treinamento lá, não. Para você ter uma ideia, eles fizeram um treinamento lá com aqueles sprays de buzina, e eu tive que ficar na ETM com (ininteligível) rodando para não ter que parar a produção, quer dizer, eu podia morrer, então, que... Ia manter rodando. Todo mundo correu. Ele falou: "Não, você fica aí, que deixa rodando, para não parar a produção de minério".
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Na sua opinião, eles já tinham conhecimento do risco e começaram a fazer algum tipo de treinamento mais...
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - É porque nunca... Faz 18 anos que eu trabalho lá.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Nunca tinham feito.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Nunca se fez. Igual no dia também... Nunca teve aquele tanto de gente na barragem, gente! Eu trabalho lá há 18 anos. Eu trago aqui 20 testemunhas.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Vou pedir licença ao Fernando e ao Relator, porque, com a presença do Deputado Subtenente Gonzaga, nós já alcançamos o quórum e temos três requerimentos para votar. Depois voltamos para os depoimentos, porque já estamos com quórum lá no plenário, e o fruto deste nosso acordo pode sair a qualquer momento. Nós temos número para deliberação.
Havendo número regimental, passamos para a deliberação de requerimentos.
O primeiro é o Requerimento nº 123, de 2019, do Sr. Roberto Alves, que requer cópia dos dados relativos aos sigilos bancário e telefônico do Sr. Makoto Namba, em poder da 2ª Vara Cível, Criminal e de Execuções de Brumadinho.
Há quem queira discutir? (Pausa.)
Não havendo quem queira discutir, coloco em votação o requerimento.
Aqueles que o aprovam permaneçam como se acham. (Pausa.)
Aprovado.
Requerimento nº 127, do Sr. Tiago Mitraud, que requer a realização de audiência pública sobre compliance ambiental e responsabilização por fraudes a investidores nos mercados de capitais e convida a Sra. Érica Gorga, pesquisadora da Universidade de São Paulo, ex-Diretora do Centro de Direito Empresarial da Yale Law School e perita nas ações cíveis dos desdobramentos da Lava-jato na Corte de Nova Iorque, representante da Comissão de Valores Mobiliários, representante do Banco Central do Brasil.
Em discussão o requerimento. (Pausa.)
Não havendo quem queira discutir, coloco em votação o requerimento.
Aqueles que o aprovam permaneçam como se acham. (Pausa.)
Aprovado.
Chamo agora o Deputado Vilson da Fetaemg para fazer a leitura, porque eu sou o autor do terceiro requerimento e não posso, como Presidente, proceder à leitura. Peço ao meu Vice-Presidente Gilberto Abramo esta deferência, porque eu já havia combinado com o Deputado Vilson. Não há nenhum problema, porque o Deputado Gilberto Abramo é nosso companheiro. (Pausa.)
O SR. PRESIDENTE (Vilson da Fetaemg. PSB - MG) - Dando continuidade, anuncio o Requerimento nº 128, de 2019, do Sr. Júlio Delgado, que requer diligência no Município de Congonhas com o objetivo de avaliar a situação da barragem de Casa de Pedra e minorar os riscos da ocorrência de um novo rompimento em Minas Gerais.
Alguém deseja discutir o requerimento? (Pausa.)
Não havendo quem queira discutir o requerimento, passa-se à votação.
Aqueles que o aprovam permaneçam como estão. (Pausa.)
16:40
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Aprovado por unanimidade o requerimento do Deputado Júlio Delgado, Presidente da nossa Comissão. (Pausa.)
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Nós estamos, então, com os requerimentos aprovados. Voltamos para os depoimentos.
O Deputado Rogério Correia já concluiu. Neste momento, com a deferência do Sub-Relator Janones, vou passar a palavra ao Deputado Vilson, que parece ter um compromisso, outro depoimento.
Deputado Vilson da Fetaemg, V.Exa. tem a palavra.
O SR. VILSON DA FETAEMG (PSB - MG) - Sr. Presidente Júlio Delgado, nosso Relator Rogério Correia, eu quero aqui cumprimentar os funcionários que vieram prestar esse esclarecimento e que ainda são funcionários da Vale: o Sr. Fernando, o Sr. Elias de Jesus — é porque é de Jesus que a sua caminhonete ficou lá rodando e o senhor foi salvo — e o Sr. Marco Antonio, conhecido como Marcão.
Sr. Presidente e demais colegas, eu acho que, diante da gravidade do rompimento dessa barragem no Córrego do Feijão, em Brumadinho, todos as atividades desta Casa tinham que ser paralisadas para que isso fosse resolvido. Ontem, lá na tribuna da Câmara, nosso Presidente, o Deputado Júlio Delgado, fez um depoimento emocionado, esbravejando. Quem dera naquele dia em que aconteceu o fato — na Comissão Externa de Brumadinho estava a imprensa, a sala estava toda lotada — vocês, funcionários, pudessem ter estado aqui dando este depoimento. Nós não somos contra o setor minerário. Minerar é preciso, mas não nesses moldes criminosos. Nós defendemos a vida.
Então, eu quero deixar registrado aqui, Presidente e Relator, a nossa indignação com a insensibilidade de colegas Deputados, porque ontem nós tínhamos que ter aprovado o projeto. Que a sessão fosse até meia-noite, 1 hora, 2 horas da manhã! Isto, Deputado Rogério, é prioridade. Quase 300 vidas foram tiradas por uma ação criminosa.
Quando o funcionário Sr. Fernando coloca que seu pai... Aí, nós falamos de sabedoria milenar: ele não esteve numa universidade, mas ele sabia. Há 7 meses ele avisava que isso poderia acontecer. Vocês confirmam isso, não confirmam? Ou não?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Eu cheguei a presenciar ele comentando, mas, como eu disse, era uma fala em vão, porque...
O SR. VILSON DA FETAEMG (PSB - MG) - O senhor quer dizer que o povo não acreditava nele.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Exatamente, mas ele... Eu já cheguei a ouvir ele falar isso, mas, assim, não tinha noção. Portanto, a gente ficava lá tranquilo. Eu estava tranquilo no dia. Eu estava sentado do jeito que eu estou aqui, tranquilo. Não tinha, assim, nada que me fizesse ter medo de estar lá.
O SR. VILSON DA FETAEMG (PSB - MG) - Você não acreditou e não deixou de desacreditar.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Exatamente.
O SR. VILSON DA FETAEMG (PSB - MG) - Mas não ficou nem preocupado?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Não.
O SR. VILSON DA FETAEMG (PSB - MG) - Bom, eu também sou da roça, viu? A gente sabe quando... Na minha região não há barragem de mineração, há outros tipos de empreendimento.
16:44
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Sr. Presidente, eu quero dizer que nós desta Comissão Parlamentar de Inquérito — CPI não podemos ficar quietos. Pela segunda ou terceira vez quero deixar aqui algo registrado. Nos muitos grupos de que participamos há muitas pessoas sugerindo a possibilidade, Deputado Rogério, de esta CPI terminar em pizza. Não vai. Nós não podemos deixar que termine em pizza. Sabe, Deputado André Janones, nós temos que fazer o nosso papel. E nós estamos aqui fazendo o nosso papel, até porque nós não temos nenhum compromisso com a Vale. Nós queremos a verdade, queremos que essa tragédia, esse crime que aconteceu...
E quero deixar registrado, Marco Antonio, Elias e Sr. Fernando, que a perda da vida é muito triste, porque há os familiares. Eu estive, Presidente, na minha cidade — eu sou lá de Cláudio —, e uma mãe e um pai estão tristes porque perderam um filho lá, só que o filho deles não foi achado. Acho que, depois da terceira ou quarta semana, localizaram a filha, acharam seu corpo. Isso é muito triste para o pai. Isso não é bom, não é bom.
Nós temos que continuar cobrando. Temos que continuar cobrando. Espero que a imprensa não tire os holofotes e que nós consigamos votar. Espero que os Deputados, os nossos colegas, estejam sensibilizados com esse crime, com essa tragédia que aconteceu em Brumadinho, que não foi a primeira. Há 20 anos, também aconteceu uma tragédia numa mina de bauxita em Miraí, lá na Zona da Mata, e até hoje... Depois, há pouco mais de 3 anos, aconteceu a tragédia em Mariana e, agora, em Brumadinho. Até quando isso vai acontecer?
Eu quero aqui cumprimentá-los e agradecer o depoimento de vocês, a coragem de vocês. E vocês continuam trabalhando lá. Então, é muito importante que vocês levem para os seus colegas e para a população local que a CPI continua trabalhando. Enquanto os culpados não pagarem, esta CPI não pode ficar quieta.
É só isso, Presidente. Queria deixar esse registro aqui. Tinha que parar... A Comissão Especial que está ali, para mim, enquanto não se resolver esta situação, que é muito mais importante... Eu sou contra essa proposta de reforma da Previdência que está aí. Ela não é importante. Importante é resolver isto aqui. Que isto ecoe lá no Governo para que o Governo também tenha sensibilidade.
Muito obrigado, Sr. Presidente.
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Eu só queria falar que o pai do Fernando ali é uma pessoa que não fez nenhuma faculdade, não, mas era uma pessoa respeitada, muito respeitada. Para tudo, tudo na mineração lá eles iam atrás dele, que era uma pessoa que vivia dentro da mineração. E era uma pessoa muito respeitada mesmo o pai dele. A gente o conhecia lá como Lau. A gente o conhecia como Lau. Eu mesmo já, tipo assim, é... Ele trabalhava em outra área. Eu trabalhava em saneamento e, tipo assim, precisava de encontrar algumas redes antigas lá e falava com ele: "Seu Lau, você sabe onde está?" "Sei; vamos lá agora, meu filho, que eu vou lá te mostrar onde está". Então, era uma pessoa que tinha conhecimento mais do que qualquer um ali dentro da mineração. Ele, tipo assim, mais do que, sei lá, um técnico, um engenheiro lá... Em termos de conhecimento, ele conhecia mesmo, porque é uma pessoa que viveu ali a vida inteira. Ele viveu ali a vida toda. E qualquer coisa que a gente precisasse de informar era com ele mesmo. Todo mundo ia era atrás dele.
16:48
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O SR. VILSON DA FETAEMG (PSB - MG) - Sr. Presidente, o senhor me permite só mais um...
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - É claro.
O SR. VILSON DA FETAEMG (PSB - MG) - Olha, a linha do raciocínio é que eu estou inscrito na outra Comissão. Eu estou preocupado, porque tenho que estar lá esbravejando também com relação a essa questão toda. Vocês sabem que a questão do rompimento dessa barragem lá do Córrego do Feijão não foi só a questão das quase 300 vidas que foram ali perdidas. Há também o dano ambiental, o dano material. Aí, Deputado André Janones, eu continuo esbravejando.
Deputado Rogério Correia, V.Exa. já foi inclusive delegado do MDA em Minas Gerais. Nós não conseguimos ainda resolver a situação dos agricultores familiares que foram atingidos, que perderam tudo, que tiveram dívida contraída no Banco do Brasil, através de linha de crédito do PRONAF. Eu solicitei agora uma audiência com o Diretor do Banco do Brasil, o Sr. Marco Túlio, porque a solução que o banco está pretendendo dar é prorrogar a dívida mais para o final do ano.
Vai aqui a nossa pergunta. Eu sou agricultor familiar também. Se você perdeu a sua propriedade, se você perdeu todo o equipamento... É uma região, Deputado André Janones, de horticultores, de pequenos produtores. Se eles perderam tudo, como vão pagar a dívida? Se eles perderam a sua principal ferramenta de trabalho, que é a sua propriedade, e os seus equipamentos, eles não têm como ganhar. E eu estive lá. Eu estive lá. Assim que aconteceu, num domingo, eu estive lá.
(Intervenção fora do microfone.)
O SR. VILSON DA FETAEMG (PSB - MG) - Justamente, Fernando. O papel desta CPI aqui vai além de só cobrar justiça pelos que morreram, cobra também pelos que não morreram, mas que tiveram as suas propriedades atingidas e que perderam tudo. Obrigado, Presidente. Era só esse o acréscimo.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Muito obrigado, Deputado Vilson.
Querem complementar alguma coisa, Elias, Marco, Fernando? (Pausa.)
Então, vou passar a palavra ao Deputado André Janones.
O SR. ANDRÉ JANONES (AVANTE - MG) - Primeiro, boa tarde a todos vocês. Eu quero me solidarizar com o acontecido. Nós temos aqui trabalhado bastante, acompanhado isso bem de perto.
Sr. Elias, eu confesso para o senhor que eu fico muito emocionado em vê-lo aqui, porque nós claramente vemos a mão de Deus na vida do senhor. Eu até confirmei ali com o nosso Presidente se realmente o senhor era aquele das imagens que eu tinha visto. Eu acho que o que mais chamou a atenção, depois do rompimento em si, de toda aquela lama, era aquela caminhonete ali andando para um lado e para o outro. Realmente, eu fico muito feliz e emocionado em vê-lo tão bem. Infelizmente, os que se salvaram foram a exceção, quando deveriam ter sido a regra.
Fica até difícil fazer muitas perguntas, porque fica tão claro. Nós selecionamos aqui — a assessoria técnica preparou — algumas perguntas, Fernando, mas nós somos como você diz. E eu fico imaginando, para você, que falou de uma maneira mais direta, mais objetiva, como deve ser difícil, se para nós Deputados é. Para mim, que tenho formação como advogado, é difícil compreender por que os responsáveis ainda não estão presos, se é tão óbvio. Eu fico imaginando como é para vocês, que não têm essa formação jurídica, não têm o conhecimento pleno da burocracia que toma conta aqui. Como é difícil para vocês aceitarem outro motivo, que não esse, para que os responsáveis não estejam na cadeia ainda.
16:52
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O Deputado Vilson fez uma colocação muito boa, e eu quero acrescentar aqui que se fala tanto na urgência da reforma da Previdência, mas eu acho que quem alega que reformar a Previdência, tirando direito dos trabalhadores com o único objetivo de aumentar a arrecadação do Governo e privilegiar banqueiro, é mais urgente do que colocar na cadeia quem matou 300 pessoas lá em Brumadinho... Eu acho que essa pessoa não tem hombridade, não tem caráter e não tem moral para votar a favor de reforma nenhuma neste País.
Infelizmente, é o País em que nós vivemos. Algumas andorinhas só não fazem verão. A gente viu isso ontem no plenário, não é, Deputado Júlio? O tanto que nós — o Deputado Júlio, o Deputado Rogério, o Deputado Vilson, a Deputada Áurea, que deu uma saidinha — lutamos lá no plenário para que os projetos fossem aprovados... Infelizmente a gente não consegue que isso seja encaminhado da maneira como deveria. No final da sessão ontem eu até pedi para o Deputado Júlio me explicar, com a experiência dele — eu sou Deputado em primeiro mandato —, o que tinha acontecido no plenário, porque eu estava com certa dificuldade de entender, porque todos que usavam o microfone faziam um depoimento pró-Brumadinho, a favor das vítimas, mas as ações deles não correspondiam àquela fala. Então, o cara usa o microfone, faz uma fala muito bonita para vocês ouvirem, em especial para a população de Brumadinho e da região, aqueles atingidos, mas, na hora de votar lá e do vamos ver, ele vota com aqueles que, na maioria das vezes, foram os grandes responsáveis pelas campanhas dele, que são a quem ele realmente presta conta do trabalho.
Então, eu queria só fazer esse desabafo antes de fazer algumas perguntas que eu, juntamente com o nosso Relator, e a assessoria técnica separamos aqui. Eu queria que vocês, se possível, nos respondessem, porque vocês vão ajudar a elucidar alguns pontos que ainda são obscuros para nós.
Primeira pergunta: como eram as relações sindicais? Havia representantes? Se havia, esses representantes eram respeitados? Vocês os conheciam?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Respeitado não era, porque é o seguinte: teve uma vez lá em que teve um acordo coletivo, e o pessoal voltou contra. O que é que eles fizeram? Passaram 2 dias — o Marcão deve lembrar o negócio —, eles levaram a mesma... Não teve mudança nenhuma no acordo. O gerente reuniu todo mundo e falou assim: "Olha, gente, se não votar a favor..." O pessoal já tinha reprovado, e a Vale não alterou nenhuma cláusula, quer dizer, se reprovou, está reprovado o acordo coletivo. Aí levaram todo mundo para um grêmio lá, com o gerente do lado olhando, e fizeram o pessoal votar de novo a mesma... Dois dias depois, quer dizer, perderam toda a credibilidade, porque não justifica. É a mesma coisa que fazer campanha para Deputado. Vota; se você não gostou, você fala: "Não, faz de novo que..."
O SR. ANDRÉ JANONES (AVANTE - MG) - "Não ficou o resultado que eu queria."
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - É, entendeu? Esse foi um problema que a gente teve lá. Outra coisa foi do turno de 6 horas. Eu procurei saber também. O pessoal trabalhava no turno de 6 horas. Tinha que levar para votação para o pessoal, pela lei... se o pessoal queria trocar o turno de 6 horas ou não. Levaram duas opções de turno de 8 horas. Não deram opção de o pessoal escolher entre manter 6 horas e 8. Mandaram embora muita gente que não quis votar. Mandaram uns 20 embora.
(Intervenção fora do microfone.)
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Foi. Aí eu falei assim: com isso aí, não... Não estou falando mal do sindicato. Eu falo que teve essas duas falhas aí. O sindicato devia defender o funcionário e, nesse lado, não defendeu.
O SR. ANDRÉ JANONES (AVANTE - MG) - Obrigado. Vocês querem acrescentar algo em relação a essa pergunta?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Essa questão de sindicato... A questão é que a gente deixa lá na mão deles, por exemplo... Quando vai votar, por exemplo, é só o sindicato. O sindicato é que vai primeiro e fica sabendo, por exemplo. Geralmente tem reuniões no sindicato. Eu mesmo vou, poderia ir. Então, assim, poderia ser um defeito até da gente não ir lá às reuniões, e a gente não sabe o que acontece. E, assim, eu costumo não querer falar do que eu não sei, por exemplo, igual lá na questão do sindicato. Pressão, por exemplo, eu mesmo colocava pressão no meu psicológico, porque, como é uma grande empresa, eu mesmo me fazia... Eu falava assim: "Tenho que fazer tudo certinho para que eu tenha emprego". Mas, como eu falo sempre, eu não tenho medo de ser mandado embora, porque eu sou muito justo e correto, então se... No dia que eu relatei para o Ministério Público do Trabalho, eu falei que quem me sustenta é Jesus. E, se eu sair, eu vou arrumar emprego em outro lugar, porque eu sou profissional. Mas, enquanto estou lá, sou profissional lá. E a gente continua trabalhando e querendo que realmente haja responsabilidades, mas que seja realmente um estudo profundo, um estudo que seja minucioso, para que realmente ache a razão do que aconteceu, para que não aconteça mais. Então, assim, eu não sou contra nem a Vale, nem quem foi, por exemplo... Mas que realmente essa CPI seja apurada, porque eu estou aqui, mas eu poderia estar morto. Então, você viu a caminhonete lá, mas quando o rapaz estava gritando lá na portaria "Misericórdia, meus amigos estão lá dentro!", eu estava lá dentro ainda! Eu estava dentro daquela poeira. Quando você vê aquela imagem da portaria, eu estava lá dentro ainda. A caminhonete passa ali, num momento rápido ali. Como eu falei ali que, quando ele disse que estava sendo salvo lá em cima, eu estava sendo salvo lá embaixo. Então, assim, que realmente isso aqui não seja... É claro que tem que ser enérgico, mas que não seja para briga, que seja para se chegar a uma conclusão, e que as pessoas que estão ao redor aí que visam isso... Eu posso falar que em momento algum ali eu pensei em levar alguma coisa quando eu estava quase morrendo. Só veio, como eu disse, a imagem dos meus filhos. Deus me mostrou que eles não são meus, que são Dele, quem cuida é Ele. Então, que o dinheiro não venha a ser maior do que qualquer coisa, que as responsabilidades venham ser corretas e elas venham ser colocadas e que venha realmente a verdade aparecer para a população e para todos. Como eu disse, muitas vezes, a gente vê a mídia indo lá. A Brumadinho foram muitas entidades religiosas, Deputados, e a gente fica lá. As pessoas vêm para Brasília, as pessoas saem de lá, a mídia sai, e nós — eu, o Fernando, o Elias —, nós estamos lá. Como eu disse, eu sou profissional. Eu estou ainda na Vale. Não tenho medo de ser mandado embora, mas a gente quer que realmente se chegue a uma situação que agrade a população, principalmente de Brumadinho. Eu agradeço.
16:56
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O SR. ANDRÉ JANONES (AVANTE - MG) - Obrigado. Sou eu que agradeço. Fernando, eu queria fazer uma pergunta especificamente para você. Eu a estendo para os outros também, mas eu entendo que você foi atingido de uma maneira mais direta. Depois que a Vale assassinou o seu pai, eles tiveram algum contato pessoal com você, emitiram algum pedido de explicação, desculpas? Eu digo alguém da alta cúpula da empresa, vamos dizer assim.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Eu vou te contar um caso, dentro da baixa. Minha mãe entrou em desespero. Eles montaram ali na Estação Conhecimento negócio de psicólogo e tudo. No terceiro dia, eu fui lá pedir psicólogo para minha mãe. Depois de 1 mês é que o psicólogo foi lá em casa conversar com a minha mãe. Só foi uma vez. Para mim, não foi dia nenhum. Eu trabalho na Vale há 18 anos. Nunca faltei 1 dia de serviço. Era referência lá também. Fui eleito umas três, quatro vezes o melhor funcionário da gerência — pode perguntar ao pessoal lá. Eu agarrava e mexia com aqueles trem tudo, carne e unha. À psiquiatra eu fui por minha conta. Aí, o que acontece? Ele me afastou. Ele era credenciado em Brumadinho. A Vale está tão ordinária que ela descredenciou ele, e eu tenho que vir a BH agora fazer consulta com ele particular e estou levando o reembolso lá, para me reembolsar, mas é uma luta para reembolsar também. É porque ele está afastando o pessoal. E é graduado esse psiquiatra, ele é membro da psiquiatria, ele é membro forense. E o médico da Vale o desconsiderou e mandou que fosse descredenciado da rede do convênio. Aí eu pago do meu bolso, e a Vale diz que vai me reembolsar. Vamos ver, né?
17:00
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O SR. ANDRÉ JANONES (AVANTE - MG) - Deputado Júlio, Deputado Rogério, hoje eu recebi um telefonema de um veículo de comunicação. Eles vão fazer algumas matérias, me parece, quando o crime completar 6 meses. Pegando um gancho no que o Fernando acabou de dizer, o jornalista do outro lado me disse o seguinte: "A gente está fazendo contato com a Vale também, é óbvio, e a informação que eles nos dão é que eles estão dando todo tipo de suporte, de apoio psicológico, financeiro, todo o acompanhamento". (Risos.) É exatamente aquilo que, se eu não me engano, um representante do Ministro Público que esteve aqui — não sei se foi o Tonet — falou: a Vale tem um comportamento dúbio, a Vale que nós vemos na imprensa, que nós vemos nas notas, não é a Vale que senta para negociar, não é a Vale que senta com as vítimas.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Igual, no caso... Eu trabalho há 18 anos. Meu pai trabalhava há 40. Nenhum psicólogo foi a minha casa, não me ligou nem nada. Eu procurei psiquiatra por minha conta. O que acontece também? A juíza de Betim determinou — não lembro o dia, não — que, a partir do quinto dia útil de maio, devia pagar, por exemplo, para minha mãe, dois terços do salário do meu pai. E a Vale não pagou, demorou a pagar. Eu fui até ao pessoal do Ministério Público que estava lá em Brumadinho, a Luciana Coutinho mais uns Procuradores lá — não sei, não lembro o nome de cor —, e falei assim: "Quem manda é a Vale ou a Justiça?" A juíza determinou, a Vale não cumpre! Quem manda no Brasil é a Vale, é o dinheiro! A Juíza mandou, determinou, e a Vale não cumpre! É aquilo que eu falo: quem manda no Brasil é o dinheiro. Eu perco até as esperanças, sabe? O juiz determina, e a companhia não cumpre. O que é que vai fazer? Que é que a gente vai fazer?
O SR. ANDRÉ JANONES (AVANTE - MG) - Nós vamos continuar lutando para contribuir para mudar essa realidade. Eu lembro que assim que passou o ocorrido...
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Deputado André Janones, o Fernando tem um voo mais cedo do que os dois. Se V.Exa. quiser fazer alguma pergunta para ele e deixar para perguntar para os outros dois depois, seria melhor.
Se os outros colegas que chegaram depois e não se inscreveram tiverem perguntas para o Fernando, façam-nas logo, para podermos liberá-lo.
O SR. ANDRÉ JANONES (AVANTE - MG) - Vou resumir três perguntas em uma para agilizar, da 24 a 26. Poucos dias após o ocorrido, nós ouvimos alguns comentários, um dos quais eu trouxe num depoimento aqui, de um senhor que, 1 ano antes, falou que iria se romper a barragem, além do seu pai. Houve também o caso, se não me engano, de uma garçonete de um restaurante. Ela comentava que ouvia os diretores dizendo do risco de rompimento e tal. O que eu queria saber? Além do seu pai, em algum momento, você ouviu algum comentário lá, seja de funcionários, seja, enfim, de qualquer pessoa envolvida ali no dia a dia da barragem, sobre a possibilidade do rompimento?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - A questão dessa funcionária que servia negócio, é ela mesma que servia na sala do gerente. Isso eu confirmo. Vi o vídeo dela também. É ela que servia. Mas o fato do meu pai lá, eu estava presente lá, eu vi. Isso foi o fato mais grave, porque se a lama... Podia chamar um especialista aqui, porque, se a lama brotou no talude, por dentro já está tudo comido. Foi no quarto banco, e para cima já tinha inúmeros bancos de altura, entendeu? Esse funcionário que você falou é o Washington Peretti — se for, ele é até amigo meu —, que estudou na Fundação Ouro Preto, fez o negócio dele de liquefação daquela barragem?
17:04
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O SR. ANDRÉ JANONES (AVANTE - MG) - Não, é outro, mas há esse também.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Esse aí é até amigo meu. O apelido dele é Goiabinha. Ele já tinha até feito. Eles continuam mexendo ainda. Agora, é igual eu te falei, a lama brotou na grama. Você pode chamar qualquer geólogo. Qualquer pessoa vai te falar: "A barragem vai estourar". Ninguém... Isso é fato. Isso é... Não sei por que não prenderam essa Cristina ainda, gente! Por que é que ela não comunicou isso, não isolou o pessoal do Córrego do Feijão? A ordem é dela, ela é a responsável pela barragem. Ela devia ter comunicado, na mesma hora esvaziado o pessoal.
O SR. ANDRÉ JANONES (AVANTE - MG) - Ela é a pessoa que é responsável por fazer...
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Responsável pela barragem. Ela é que responde judicialmente.
O SR. ANDRÉ JANONES (AVANTE - MG) - A gente chegou a essa conclusão aqui, apesar de eles sempre criarem toda uma dificuldade para serem objetivos.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Eu queria ver... Não sei se é possível, porque eu não entendo muito de Justiça. Faça uma acareação dela comigo aqui e mais uns 15, 20 funcionários que participaram no dia, porque ela mandou o pessoal da usina mexer na estrutura da barragem. E ela não tem autonomia de mexer na estrutura da barragem, igual ela falou aqui; é analisar os dados, fiscalizar e comunicar.
O SR. ANDRÉ JANONES (AVANTE - MG) - Para finalizar, Fernando, só porque o seu tempo está corrido...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Deixe-me só falar em relação a essa questão da Cristina. Nós verificamos mesmo que ela era a responsável. Mas você disse que tudo que acontecia ela jogava no sistema...
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - No Geotec.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - No Geotec. Você citou várias vezes a questão do cupim. Até isso ela tinha que jogar no Geotec para que os superiores soubessem. Você acha que, neste caso, ela agiu da mesma forma e jogou isso no... Como é que chama? Geotec?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Se eu não me engano, esse sistema chama Geotec. Você me perdoe se eu estiver errado. Mas o Geotec é o seguinte: com 1 semana eu não resolvi, mandava para o gerente-geral. Aí o supervisor meu vinha e peava-me. Aí, se não resolvesse, subia para o outro. Ia subindo até o Presidente, se fosse o caso. Um cupim, para você ter uma ideia! Se uma árvore desse na barragem, eu tinha que ir lá e cortá-la. Estou imaginando assim: tem que perguntar a ela se ela registrou isso aí, porque isso aí é tão grave que tem que ter um registro. Se de um cupim tem que ter registro, imagina isso aí. E, se não registrou, por que não registrou? E por que... Se ela não tem autonomia, por que ela mandou o pessoal abrir vala, colocar areia e brita para filtrar, sendo que não é função dela? E desvio de função do pessoal da usina também... Usina é beneficiar minério, não é mexer em estrutura de barragem, não. Agora esse Marco Aurélio e o Wagner, que foram lá, não conhecem nada de barragem. Mandou colocar areia e brita e manta geotêxtil, que a gente chama de Bidim, que é uma marca. Por que isso? Por que é que ela mandou, se ela não tem autonomia para isso? Aí vai... Foi presa — teve até um depoimento meu. Vai, passam 2 dias, 3 dias; a Vale, com o dinheiro, paga advogado lá, vai e tira. O dinheiro manda em tudo. E você acha que vai ficar presa? O de Mariana foi promovido pela Vale, virou negócio de diretor-geral aí da Vale, o responsável.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - O Poppinga?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - É, acho que é o Peter Poppinga. A Vale o promoveu, o responsável. Aí você vê: em vez de estar na cadeia preso lá, para servir de exemplo...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Ele era Conselheiro da Samarco.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Talvez não tivesse acontecido isso aqui em Brumadinho, entendeu? Aí ninguém fica preso, aí fica por isso mesmo. Daqui a pouco estoura a de Congonhas, que é pior, mata todo mundo lá na cidade, porque lá vai ser muito pior.
O SR. ANDRÉ JANONES (AVANTE - MG) - Fernando, esta pergunta aqui até não estava programada, não.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Está bom.
17:08
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O SR. ANDRÉ JANONES (AVANTE - MG) - Eu vi que você disse, durante um trecho da sua fala, que a TÜV SÜD não repassava já havia alguns dias as informações necessárias para que pudesse ser garantida a estabilidade da barragem. E a gente teve essa informação, não é, Deputado Júlio? Inclusive, na nossa visita à Embaixada da Alemanha, essa informação foi confirmada. Para ser mais preciso, há 4 dias essas informações não eram repassadas. Como é que você soube desse dado? Como é que você sabe que não era repassado?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não, eu falei a questão dos piezômetros. Eles adaptaram uns piezômetros, comunicação eletrônica. Em vez de o cara ir lá medir... Aí, o que acontece? Cinco deram problema de uma vez. Eles acharam que era problema. Não era. O piezômetro estava marcando certo, falando assim: "A barragem vai estourar, a barragem vai estourar! A pressão subiu". Agora a Vale está falando que é problema técnico nos cinco de uma vez! Na verdade, ele estava avisando: "Eu vou estourar! Eu vou estourar!"
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Quem instalou os piezômetros?
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Não sei. Mas você entendeu? Aquilo não estoura assim, não, uai! Barragem avisa. Pode perguntar a qualquer pessoa formada aí. A barragem vai te mostrando que vai estourar. O piezômetro... O cara enfia um negócio. É um tubo que tem lá, o cara desce um negócio. À medida que a água vai subindo, a pressão está aumentando no talude. Ela não estoura assim, "bum!", não. Não se pôs dinamite ali e estourou lá, não.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Os piezômetros... Uma tese que eles defendem é que os piezômetros é que estavam...
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Com problemas.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Como é o termo que eles usam? "Leituras discrepantes". É o que eles usavam em relação aos piezômetros, "leituras discrepantes". E o radar, a pessoa que...
O SR. IGOR TIMO (PODE - MG) - O radar estava com ruídos.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Não, o radar... A pessoa que manuseava o radar, que é o Tércio, não sabia: "Devagar com o andor que o santo é de barro", porque ele não tinha o conhecimento das coisas.
O SR. IGOR TIMO (PODE - MG) - Isso. E as imagens tinham ruídos, não se conseguia precisar.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Ele sabia, mas ele não tinha volume técnico para poder dizer dos riscos que havia, que o radar detectou.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Outra coisa, o piezômetro é eletrônico. Mesmo sendo eletrônico, por que a Cristina não mandou o pessoal ir lá, descer a fita métrica lá e medir para ver se estava mandando o dado correto ou não estava? Tem a opção de descer o manual e medir, mesmo sendo eletrônico. Por que é que não mandou? E em cinco dar defeito de uma vez? Barragem, pode perguntar a qualquer especialista... Eu estava vendo na televisão: barragem não estoura de uma vez, gente! Não existe barragem que estoura de uma vez, a não ser que você ponha dinamite nela e a estoure. Igual eu estava falando com vocês, brotou... Até menino! Você represou aqui; se a lama vazou daqui e começou a brotar na grama, por dentro já não tem mais nada, já está tudo comido, já... O que aconteceu ali foi corrosão interna, igual meu pai falou, corrosão interna, foi molhando tudo, depois só foi liquefação.
O SR. ANDRÉ JANONES (AVANTE - MG) - Para finalizar, eu só quero encerrar, Sr. Presidente, dizendo o seguinte: o depoimento do Fernando, do Marco e do Elias é a prova definitiva de que o nosso País realmente está de cabeça para baixo. Sem querer menosprezar a função de nenhum de vocês, mas eu tenho certeza que o que era de se esperar era que soluções, conversas objetivas que realmente esclarecessem para nós o que aconteceu viessem daqueles mais altos hierarquicamente. E, pelo menos para mim, esta é a conversa mais clara. Eu acho que qualquer um que está aqui dentro deste plenário consegue entender o que está sendo falado aqui. Ninguém está fugindo do assunto, ninguém está falando linguajar que ninguém entende. Então, essa é a prova, realmente, de que as coisas no nosso País estão totalmente de cabeça para baixo.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - O gerente deve ganhar de 16 a 20 mil. Se o gerente interdita uma mina, de cara ele é mandado embora, você entendeu? Ele pensa no emprego dele, mas não pensa na vida dos outros.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Fernando, olha, você é que tem voo. Se você quiser ficar, você pode ficar. Estou querendo lhe fazer perguntas, mas estou evitando, porque você tem que ir embora. Eu quero lhe dizer, primeiro, que você pode se tranquilizar: aqui a gente já chegou à conclusão. A Cristina está, coitada, enrolada até o fundo do poço. Ela vai ser presa de novo. Só que o que está acontecendo é que a Vale está querendo jogar a bucha só para cima dela. No dia em que nós estivemos com ela aqui... Nós estivemos com ela, todos nós. Aquela mulher tremia igual vara verde. Você já viu vara verde quando você balança?
17:12
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O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Conheço.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Então, ela tremia mais do que aquilo. E nós perguntamos para ela, porque ela sabe que vai ser presa novamente e vai ser indiciada. O problema é que ela não é responsável sozinha, e estão jogando a responsabilidade só para ela. Ela é responsável também, tanto que eu perguntei a ela, como eu perguntei para os demais, se algum dia... Como o Deputado André Janones disse aqui, vocês são funcionários. Graças a Deus, vocês vieram dar um depoimento aqui. Para nossa honra, depois de ontem, de uma luta muito grande, que nós vamos continuar, vocês vêm aqui provar a providência divina — todos nós aqui acreditamos nisso —, o Elias, o Marco.
Fernando, para terminar, sobre o seu pai — e você tem que ir para casa —, eu quero dizer o seguinte: o que a gente fez de perguntas para todos os gerentes e diretores que vieram aqui nós não vamos perguntar para vocês. Se você ficar preso meio dia, injustamente, pode mover uma ação contra o Estado, e você quebra o Estado. Por que esses gerentes todos, com exceção da Cristina, foram presos? Não foi 1 nem foram 2, foram 14 dias, e nenhum deles acionou o Governo ou o Ministério Público — nenhum deles. Aceitaram passivamente a prisão, para demonstrar que isso foi combinado pela Vale, só para você saber.
Então, você pode sair daqui ciente de que nós vamos tomar as medidas que nos competem. Estamos muito atentos com a questão da legislação e com relação à apuração disso. Eu queria lhe fazer mais algumas perguntas, mas vou deixar e fazer para os seus colegas, para você poder ir. Você pode ir embora tranquilo. Eu não posso falar pela totalidade dos meus colegas, mas dos que aqui estão — e chegou agora, estava em compromisso, o Deputado Hercílio; o Deputado Igor Timo está em movimento —, da bancada de Minas, temos um comprometimento. Você pode ir embora daqui tranquilo com relação a isso. Nós vamos dedicar o nosso mandato a encontrar os responsáveis, e eles pagarão por isso civil e penalmente. E vamos tentar aprovar a legislação, que é o que nos compete mais ainda, e seremos rigorosos com isso.
Então, você pode saber o seguinte: se nós precisarmos de você de novo... E você tentou aqui provar e pediu, umas três ou quatro vezes, mas, para você se tranquilizar, não é preciso fazer acareação entre você e a Cristina.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Pode fazer.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Não precisamos disso, porque já ouvimos você e a Cristina. Então, a gente sabe quem está com a verdade, e não é preciso fazer acareação. Acareação é quando a gente tem dúvida, e não paira dúvida para nenhum de nós com relação a isso. O Relator, Deputado Rogério, não tem dúvida, eu não tenho dúvida, o Deputado André Janones não tem dúvida, o Deputado Hercílio não tem dúvida, o Deputado Igor Timo não tem dúvida. Na nossa Comissão, ninguém tem dúvida de quem está falando a verdade e quem está falando mentira. A gente faz acareação quando tem dúvida.
Então, você pode ir tranquilo, sabendo o seguinte: se fosse necessário, nós a faríamos. Não é necessário. Se você quiser ouvir mais, ouvir o Elias e o Marco no que puder, eu ainda tenho questionamentos a fazer a eles, para você poder concluir. Você pode ficar tranquilo também com seu voo. Nós conhecemos Brasília. Se você sair daqui até 5 horas e meia, consegue pegar o seu avião. Eu sei que mineiro não gosta de perder o trem, mas você fica tranquilo que você não vai perder o trem, não.
Pode falar.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Eu vou só finalizar aqui, porque o horário é de rush e fica cheio. O negócio é o seguinte também: o Alexandre Campanha tem que mudar a legislação, vocês têm que mudar o sistema. A Vale é que escolhe quem avalia a estabilidade da barragem. Olhe, está errado! Vocês, Deputados, têm que ver e mudar isso aí; não é a Vale, não.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Nós estamos tentando mudar.
17:16
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O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - Se eu sou o dono da empresa, e a empresa que eu contrato não aprova, eu contrato outra. O Alexandre Campanha falou assim: "Você vai aprovar ou não vai?" Aquele também não vale nada, não dá valor a nada. Serve para alguma coisa um homem daqueles, um traste daqueles? Vá a Brumadinho para você ver o sofrimento que está na cidade. Eu estou sofrendo por causa do meu pai. Mas não é só por causa do meu pai, não. Eu perdi prima e mais de 150 amigos, que eu conhecia filho, conhecia a mãe, o pai deles, ia a casa deles. Entendeu? Não é fácil. Eu nunca tomei remédio. Agora estou tomando Rivotril, clonazepam, um bocado de remédios, começando a dar espinhas — eu estou com as costas toda "espinhada". (Risos.)
Não é para rir. Mas eu não durmo direito mais.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Esse riso é de nervoso. Pode ficar tranquilo, porque sabemos que você ri de nervoso.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - A lei tem que mudar. Tem que ter uma empresa que faça individualmente, sem ser a empresa que contrata. Não existe empresa contratada para fazer auditoria. Isso não existe.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Fernando, esse projeto que você está falando, ele está prontinho para ser votado no plenário.
(Não identificado) - Os nossos colegas Deputados que não querem.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Não, nós queremos. Nós aqui ontem tentamos demais.
(Não identificado) - Não vocês, mas tem muito dinheiro envolvido.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Muito.
O SR. IGOR TIMO (PODE - MG) - Fernando, eu vou só fazer uma observação sobre o que você estava falando.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Pode fazer a observação. O Deputado Igor vai falar, mas, Fernando, da nossa parte, agradecemos, e você está liberado.
Com a palavra o Deputado Igor Timo.
O SR. IGOR TIMO (PODE - MG) - Eu vou ser muito honesto. Até gostaria de deixar claro que eu vejo que você, às vezes, ri de um momento como esse porque realmente seria cômico se não fosse tão trágico.
E aproveito a oportunidade da sua presença, do Elias, do Marco, para deixar claro que, se a Vale chegou aonde chegou e se transformou nessa megaempresa multinacional, certamente isso se deve ao belíssimo trabalho que profissionais como vocês têm feito por essa empresa. Não há a menor dúvida quanto a isso.
O nosso Presidente falou com propriedade que nós aqui conseguimos identificar muito bem onde há verdade e onde há mentira. E eu queria reforçar, Deputado Júlio, dizendo que, assim como eles estão sendo aqui extremamente transparentes, eu tenho recebido muitas mensagens de colaboradores da Vale, parabenizando o trabalho desta Comissão Parlamentar de Inquérito. Eles deixam claro que realmente a realidade na Vale é bem diferente da realidade que aparece nas suas propagandas, haja vista que ela deixa de investir em segurança e gasta fortunas em propaganda.
Então, quero aqui agradecer-lhes a presença e a colaboração que nos trouxeram. Infelizmente, para a nossa imensa tristeza, não conseguimos avançar tanto quanto gostaríamos, em função de questões que, muitas vezes, fogem da nossa alçada. Cito, por exemplo, o impedimento de ter vindo a esta Comissão Parlamentar de Inquérito o ex-Presidente da Vale, Sr. Fábio, que poderia efetivamente ter tido a oportunidade de contribuir, mas foi impedido pelo Supremo. E os que aqui vieram, para a nossa imensa tristeza, muito pouco fizeram. O que procuraram fazer, como disse aqui o nosso amigo, o Deputado Janones, foi criar uma cortina de fumaça para servir de engodo e subterfúgio para não transmitir a verdade que nós precisamos apurar e que, com certeza absoluta, já estamos apurando.
Há também uma pequena falha, e eu divido essa responsabilidade com os meus amigos Parlamentares. Há uma falha dentro do procedimento parlamentar que impede que ações sejam votadas aqui por uma série de questões compreendidas no Regimento Interno da Casa.
17:20
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Ontem, aconteceu isso, e eu fiquei extremamente estarrecido. O nosso Presidente demonstrou toda a sua revolta, porque mesmo Parlamentares que compreendem a situação — alguns são nossos conterrâneos de Minas Gerais — contribuíram para que fosse impedida a votação de temas importantíssimos que já vêm sendo discutidos há anos aqui desde Mariana, passando pela nossa Comissão Externa, agora na Comissão Parlamentar de Inquérito. E temas que foram discutidos de forma profunda, para os quais já havia inclusive todo um alinhamento, na última hora, deixaram de ser votados por uma questão que eu entendo que beira a ignorância.
Ao falar sobre as situações que vocês passaram, ninguém aqui vai conseguir entender o que o Sr. Elias registrou, por exemplo, no vídeo, daquela caminhonete fugindo da lama, e pessoas como você que perdeu familiares e amigos, enfim, para vocês que estão lá há tanto tempo isso é difícil até de expressar.
Eu fico impressionado, Deputado Hercílio, como conterrâneos nossos de Minas Gerais podem efetivamente não contribuir com uma causa que se tornou internacional? A única explicação que eu encontro para isso é o que o Fernando acabou de dizer: é o interesse particular, é o lucro falando mais alto. Diga-se de passagem, Deputado Júlio, é importante deixar claro nesta Casa que mudaram os autores. Durante muitos anos, essa responsabilidade foi atribuída a outros Parlamentares que aqui estiveram. Nós tivemos uma mudança de quase 50% da Casa. Então, falar que mudaram os autores, mas que a obra será a mesma, eu não estou aqui para isso.
Ontem, eu deixei claro no meu pronunciamento na Câmara que eu tenho plena consciência de que os meus pais teriam orgulho de ter visto aquele pronunciamento. Nós temos que estar aqui por alguma coisa. Tem que haver alguma chama, tem que haver alguma coisa que nos mova de fato: ou a nossa fé, ou a nossa crença, ou o nosso amor a nossa família, ou o nosso amor ao próximo.
Infelizmente, Deputado Hercílio, o que tem predominado nesta Casa, mesmo com a mudança que foi feita, é que muitos aqui só enxergam o próprio umbigo, os interesses particulares. Estejam certos, Fernando, Elias e Marco, que, ainda assim, como minoria, nós vamos lutar aqui arduamente para que esse tipo de crime, para que esse tipo de impunidade, para que esse tipo de injustiça deixe de prevalecer em nosso País.
Parabéns pelo trabalho que vocês fizeram à frente da Vale. Certamente, sem vocês, ela não teria chegado aonde chegou. Que Deus os abençoe e conforte o coração de vocês pelas perdas que tiveram.
O SR. FERNANDO HENRIQUE BARBOSA - O.k. Muito obrigado. Eu vou me retirar agora por causa do voo marcado, senão eu perco o voo.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Se precisar, convidamos você de novo, Fernando.
Enquanto o Fernando sai, eu queria fazer algumas perguntas para o Elias e para o Marco.
Deputado Janones, V.Exa. tem alguma pergunta para fazer ao Elias ou ao Marco? Deputado Hercílio? Deputado Igor?
17:24
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O SR. IGOR TIMO (PODE - MG) - Só queria tirar uma dúvida rápida com eles. Como eu tenho recebido muitos comentários de colaboradores da Vale, que efetivamente têm ido ao encontro da nossa Comissão, quero saber de vocês pessoalmente se é possível afirmar que a postura da Vale não é compatível com a necessidade. Vocês poderiam, de alguma forma, descrever para nós se a Vale em algum momento deixa de fazer os investimentos adequados em segurança? Porque as pessoas que aqui vieram parece que estão ungidas, estão numa condição de não enxergar o que acontece de fato. Então, eles chegam aqui ungidos, como se estivessem encantados, do tipo "a nossa empresa não erra nunca", "nós nos cercamos dos melhores profissionais do mercado". Tem hora que se acha que aquelas pessoas cavaram ali na lama e entraram debaixo, porque é brincadeira o que eles tentam fazer aqui conosco, subestimando a nossa inteligência. Para vocês que conviveram diretamente com isso, a minha pergunta é bem objetiva: a Vale, de alguma forma, é negligente com algumas ações?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Após o ocorrido, o supervisor me ligou perguntando como eu estava, psicólogos da Vale. Eu estou aqui para falar a verdade. Nem falar contra a Vale nem falar a favor da Vale, simplesmente falar a verdade. Eu tive apoio, sim. O supervisor ligou para mim várias vezes: "Como você está? Você tem condições de trabalhar? Não tem?" O psicólogo ligou: "Olha, Elias, você precisa marcar horário?" "Não, não precisa, estou tranquilo." Por causa disso, não foi necessário eu passar por psicólogos; não precisei passar. Mas que eles me ligaram, perguntando se eu precisava de alguma coisa, isso eles me ligaram.
O SR. IGOR TIMO (PODE - MG) - Mas lá, durante o trabalho — por exemplo, viu lá um talude vazando, viu lá lama brotando em algum lugar —, vocês percebiam que de alguma forma eles deixavam de tomar uma ação imediata, como paralisar a tarefa, a ação ali. Parava? "Não, vamos parar porque aqui brotou um risco." Como é que eles funcionavam na operação?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Na Vale, na operação, existia até as regras, que eles falavam "as regras de ouro". Se você descumprisse uma regra daquelas, aí já era justificativa para você ser demitido da empresa. E a Vale sempre foi — o Marco pode confirmar isso —, a Vale sempre foi uma empresa, tipo assim, chata para se trabalhar. Você não saía na área sem o capacete, sem botina. Você não podia descer — eu trabalhava com equipamentos —, você não podia descer de um caminhão sem estar usando uma botina. Se você fizesse qualquer atividade que não fosse, tipo assim, se fizesse por conta própria, aí você assumia todos os riscos. Você não entra dentro de uma área da Vale hoje — você pode ir lá, você não entra, nunca entrou — sem um giroflex na caminhonete. Se a caminhonete não for apropriada para a área, não entra, se não for uma 4x4. Então, em questão de segurança, na minha percepção, sempre foi uma empresa chata, nunca aceitava mesmo. Dentro da área da Vale você não entrava de qualquer forma. Isso aí o Marco pode confirmar, ele sabe. Em questão de talude vazando, igual você falou aí, essas informações a gente não tinha. Eu não tinha esse tipo de informação, porque eu não era da área de especialidade em barragem. Tinha o pessoal que era próprio para isso. Questão de barragem, da gerência também de meio ambiente, como é uma empresa muito grande, então, é dividido. As pessoas que cuidam de barragem cuidam só de barragem; quem cuida, por exemplo, de saneamento, que era a nossa área, é só saneamento; quem cuida de licenciamento é só licenciamento. Então, essa informação só vai para as pessoas que são dessa área, que são especialistas dessa área. Não vai para a gente, que é do saneamento, que é do tratamento de água. Você não tem acesso a documento de barragem sendo um funcionário, por exemplo, que trabalha com saneamento. E, em termos de segurança, sempre foi uma empresa, posso dizer, chata, no caso, que não permitia mesmo, dentro da área dela, sem o uso dos óculos, sem o uso do capacete, sem o uso de botina.
17:28
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O SR. IGOR TIMO (PODE - MG) - Na verdade, a Vale tinha uma preocupação, sim, com a segurança do trabalho. Disso nós não temos dúvida. A gente chega na Vale e enxerga todo mundo de capacete, usando os devidos EPIs, que a gente conhece muito bem. O questionamento é esse que você fez. Nesse nível, a Vale tem uma grande preocupação com segurança, porque ela também tem perda se não tiver. Os órgãos fiscalizadores conseguem identificar isso, conseguem chegar ali e ver se a pessoa está usando capacete, se está usando a bota adequada, uma perneira, um colete refletivo, enfim. Então, com tudo isso que está a olho nu, nós sabemos que a Vale se preocupa. A grande preocupação, na verdade, e foi demonstrado aqui durante todo o processo sobre o qual nós temos nos debruçado, é que, nesses níveis de preocupação, em que realmente a Vale poderia colocar em risco a sua lucratividade, em que ela poderia ter que parar de extrair por algum tempo, ela realmente negligenciava. Inclusive colocava pessoas para decidir sem terem a menor condição. Vários passaram por aqui e deixaram muito claro que não tinham conhecimento para assinar ARTs, que não tinham formação para isso; que, muitas vezes — muitas vezes! —, tomavam decisões sem o arcabouço necessário de informação, e, mais, sempre deixando claro que o perfil deles na cobrança era o de exigência máxima, igual foi dito pelo Fernando aqui: "Se você não me atender me dando aqui o alvará de licenciamento, você não serve para fiscalizar a minha empresa". Esse é o problema. Nesse nível de segurança do trabalho, a Vale tem uma preocupação gigantesca. No que eu acho que ela tem sido negligente mesmo é com o nível de segurança da vida, diretamente falando, porque, uma barragem que se rompe e mata mais de 300 pessoas, nós não estamos falando de uma brincadeira, nós estamos falando de um assassinato em massa.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Elias, Marco, o Deputado Igor desabafou, o Deputado Hercílio ainda está se acostumando com o microfone e, na sua timidez, vai colaborando conosco com a força moral — demonstrou isso ontem. Eu fiquei muito satisfeito com o telefonema que eu recebi do Hercílio. Eu quero agradecer. O Deputado Janones já tem o costume de nos ajudar. Eu quero perguntar a vocês algumas coisas do dia a dia normal. Nós temos tido a informação aqui de que funcionários da Vale têm participado da continuidade das buscas nos escombros na lama. Procede essa informação?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Olha, eu estou, desde o ocorrido, eu fiquei mais ou menos uns 30 dias parado, e voltei às atividades normal, porque eu senti que estava psicologicamente tranquilo para trabalhar. Então, eu voltei, mas, tipo assim, eu acompanho — eu estou falando do meu trabalho —, eu acompanho as empresas terceirizadas. Tem uma empresa lá, a Ambipar, por exemplo, que atende emergência. Então, os bombeiros estão lá trabalhando, fazendo as buscas deles lá, em busca de segmentos de corpos. Então, eles precisam de um apoio, por exemplo, e eu aciono essa empresa. Essa empresa vai lá e faz esse trabalho. O meu trabalho mesmo é de apoio. Eu não trabalho, não escavo nada nem...
17:32
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O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Mas essa empresa já trabalhava na Vale antes?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Não, ela foi contratada em caso de urgência, de emergência.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Depois do rompimento?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Após o rompimento.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Marco, você tem alguma coisa a acrescentar sobre isso?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Essa questão de pessoas trabalhando lá, por exemplo, no começo, foi voluntário. Eu trabalhei voluntariamente até meia-noite num dia; no outro dia, eu voltei. Eu não sei como está o trabalho lá dentro, porque eu estou trabalhando fora, fazendo visita. Então, lá dentro, eu sei que são 24 horas, as pessoas estão trabalhando 24 horas. Os funcionários Vales estão indo trabalhar. Se estão na busca direta de corpos e com máquinas, isso eu não sei, porque realmente foram contratadas muitas empresas, com operadores e máquinas, para que estejam fazendo esse trabalho. E o bombeiro, ele acompanha do lado. Muitas vezes, eu vejo falando: "Bombeiro achou". Mas os funcionários terceirizados é que acham os corpos e eles identificam. É um trabalho louvável. Mas eu queria frisar aqui que heróis são os empregados Vales. Este aqui, ó, salvou o Leandro! Ele e o Sebastião é que salvaram o Leandro. Se não fossem eles tirar a lama do abdome dele, ele não conseguiria respirar, e outros também. O Gleison, quantas pessoas ele não salvou? Na caminhonete foram umas 16, 17. Então, é...
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Essa é a caminhonete em que você subiu? Em que você se pendurou?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Exatamente. Então, eu queria até frisar aqui para o Brasil...
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Aqueles dois homens, que você citou lá no começo, que estavam com você, conseguiram se salvar na caminhonete junto ou não?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Você fala...
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Acho que é William. Um que estava correndo com você e caiu.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - O Wilson?
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - O Wilson.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Não.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - E o outro que caiu na vala?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - O que caiu na vala é o Ednei. Ele está conosco. Assim, não está bem psicologicamente, mas ele está vivo. E eu creio que ele vai se recuperar. Mas o Wilson, infelizmente, não está entre nós. Mas eu agradeço a Deus, porque eu não tenho trauma e eu não fiquei com remorso, porque eu também poderia estar tomando remédio, mas aqui estou. E estou trabalhando. Quando eu fui, foi voluntariamente. Eu sou um caso diferente, porque eu quis ir. Mas as outras pessoas que estão lá...
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Mas o que o Elias fez e o que você fez, no dia, na hora, no momento, não se trata disso. Ali vocês estavam ajudando a resgatar companheiros de trabalho, tentando salvar vidas, participando. Vocês estavam no local do acontecimento. Se qualquer um de nós estiver numa sala destas aqui, houver um incêndio e uma pessoa estiver com dificuldade de se locomover, nós vamos ajudá-la no que for possível. O que nós temos é que, meses depois, igual o Elias está falando, a Vale contrata empresas e pessoas. E a informação que nós temos é que gente que trabalhou e que esteve no acidente, lá, no dia do ocorrido, do rompimento, do crime, do homicídio coletivo, naquele dia, voltou ao trabalho meses depois, como se você tivesse ficado afastado 30 dias, você tivesse ficado afastado um tempo, e tivesse sido designado, como função, para ajudar na busca — não é de corpos, de segmentos, não, porque a gente sabe o que está acontecendo lá; a gente tem conversado com a Polícia Civil —, de rastro ou de material depreciado, que ficou ao longo da área, que eles chamam de autossalvamento, que vocês mesmo falaram que inundou. Mas eu tinha uma dúvida também a esclarecer com vocês. Uma hora o Elias falou aqui, no começo também, não sei se foi o Elias ou você: por que, sabendo que tinha uma outra área lá em cima... Como é que se chama a outra barragem do lado, que fica acima?
17:36
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O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Jangada.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Jangada, a Mina da Jangada. Por que já não tinham transferido para uma unidade, mesmo que fosse temporário, lá para cima, o refeitório e o centro administrativo? Eu pergunto a vocês: qual era o número de pessoas que trabalhava naquele complexo, num dia normal, entre barragem, mina, área de trem, que o Elias estava, área lá do... Você estava almoçando, segundo você disse?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Exatamente.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Quantas pessoas ficavam normalmente lá: 500, 400, 600, 300?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Não dá para precisar quantas pessoas ficavam lá no pátio, porque...
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - No pátio, não, no complexo do Córrego do Feijão. Eu vou te fazer uma pergunta mais precisa: no dia do rompimento, tinha mais ou menos gente do que de costume?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Na sexta-feira, tinha reunião, tinha gente em reunião, que não estaria lá, e estava. Para mim, tinha mais gente.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Porque, por incrível que pareça, vocês estavam. Nós já conversamos aqui com alguns gerentes e diretores. Tirando o que faleceu, como foi dito aqui pelo Fernando, nenhum dos diretores ou gerentes estavam lá, nenhum que tinha responsabilidade de estar lá, nenhum: nem a Cristina estava, nem o Alexandre estava, nem o outro estava, ninguém estava. Acima de vocês, que não era do serviço, de função lá, ninguém estava. Então, por isso eu estou perguntando a vocês se o número de pessoas lá, naquele momento, era maior ou menor, porque tem gente que fala — aí eu vou perguntar a vocês — que já encontraram 250 corpos, para arredondar, e falta encontrar, acho, 24. Isso dá em torno de 270. Tem gente que fala que tem mais gente lá do que o que eles estão falando, tem gente que fala que tem menos gente lá, porque tem gente que se escondeu. Outro dia, apareceu aqui em Brasília uma desaparecida. A mulher foi lá, tinha registro lá, e apareceu aqui em Brasília, estava aqui em Brasília, dada como desaparecida lá. Tem gente que quer burlar para levar vantagem na desgraça dos outros. Então, eu pergunto a vocês essa impressão: tinha mais gente, tinha menos gente? Lá tem esse número de pessoas mesmo? Esse era o número de pessoas que ficava lá ou pode ser que ainda tenha gente que não estava registrada e que está lá, no meio daquela lama?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Eu acho que o número de pessoas que estava no dia lá é o número de rotina mesmo, só que no restaurante tinha mais pessoas devido ao horário, que era em torno de... o ocorrido aconteceu em torno de 12h30min. Então, era o horário que, tipo assim, o pessoal mais gostava de almoçar. Mas eu acho que o número de pessoas ali, naquele dia, era o da rotina mesmo.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - O de sempre?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - O de sempre.
O SR. PRESIDENTE (Júlio Delgado. PSB - MG) - Era isso que eu queria saber.
Vou passar agora a palavra ao Relator, que já chegou. Ele tem um último questionamento a fazer.
Eu peço para a Deputada Áurea vir aqui, porque eu tenho que ir a uma entrevista, para, depois do Deputado Rogério, se for o caso, encerrar a reunião.
17:40
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O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - É um questionamento que eu teria — vou ter também que me ausentar, em seguida —, e a pergunta é para os dois: como é que vocês veem hoje a empresa? Vocês tinham um conceito da empresa positivo, né? Vocês já disseram isso, no sentido de que havia confiança, de que aquela barragem não se romperia, de que a Vale tomava conta de tudo direitinho etc. Hoje vocês têm a mesma opinião ou mudou a opinião em relação a isso?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Eu continuo pensando, hoje, por exemplo, que a empresa vai se reerguer e achar o que aconteceu. E, assim, pelo menos na minha área, eu trabalho na área de recuperação, e, no meu trabalho, eu vejo quem é honesto, quem não é honesto, porque eu vou diretamente nas visitas. Então, eu tenho vivido isso. Eu tenho vivido os oportunistas, eu tenho vivido as pessoas honestas. Então, eu acredito nos profissionais que estão lá, na minha área. E, assim, que ela realmente se reerga e trate dessas outras coisas, que a gente possa não ver mais barragem se romper. Porque, para mim, quem tiver que ser punido, que seja punido, mas que haja uma responsabilidade, para que ela também continue no seu processo, mas que seja um processo correto, um processo honesto, um processo transparente, para que... Eu acredito, sim. Igual a vocês, por exemplo, aqui. Vocês estão desacreditados na votação, mas vocês acreditam ainda que a votação vai acontecer e que vai dar tudo certo. Então, é o mesmo conceito meu em relação à empresa.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - O.k.
Pois, não.
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Eu acho que a Vale sempre foi... é uma grande empresa. Não estou aqui puxando o saco da empresa, mas ela foi uma grande empresa. E, como o Marco falou, tem pessoas lá realmente capacitadas, pessoas que realmente você tem que tirar o chapéu, tem que dar valor. Mas só que agora é preciso mudar, mudar a forma de quem você vai colocar para assumir certos cargos. Você não pode julgar uma empresa inteira por determinadas pessoas. Tem que encontrar o culpado, tem que encontrar o culpado na empresa. Nem por isso ela deixa de ser uma grande empresa, porque tem pessoas lá que realmente estão dedicadas a trabalhar, estão dedicadas a fazer o certo. Agora, que tem que encontrar o culpado, tem que encontrar. Eu acho que o dinheiro não pode ser maior, ter mais valor do que a vida. Tem que trabalhar de uma forma diferente. Eu acho que, a partir desse ocorrido aí, mudou a forma de se trabalhar em mineração em Minas Gerais. Eu acho que, a partir daí, então, mudou a forma. Você julgar uma empresa inteira por, sei lá, uns três ou quatro ali que erraram e omitiram informação, acho que isso aí também seria até injusto. A empresa sempre foi uma grande empresa, mas, em qualquer lugar, tem pessoas que trabalham certo e tem pessoas que trabalham errado. E essas pessoas que trabalham errado é que tem que ser retiradas, e não se retirar uma empresa, parar uma empresa como essa. Minerar é preciso, igual foi falado. É preciso minerar, mas de forma diferente, de forma que se possa minerar e que as pessoas possam se beneficiar disso. Minas Gerais inteira se beneficia da mineração, mas é preciso minerar de forma diferente, colocando pessoas certas no cargo certo. Não adianta você colocar uma pessoa lá que não entende de um certo assunto para tomar conta de uma coisa de que ela não entende. Às vezes tinham pessoas ali que não estavam capacitadas para aquela função. Essas pessoas erraram e causaram esse problema. Então, é preciso achar os culpados? Sim, é preciso achar, mas é preciso também saber que ali têm pessoas que trabalham certo, igual estamos eu aqui e o Marco. Nós damos o nosso melhor para a empresa. O que a gente pode fazer de melhor a gente faz. E eu acredito que, na alta direção da empresa, existem essas pessoas, mas às vezes têm pessoas ali que estão trabalhando e que não vestem a camisa da empresa; estão trabalhando de forma errada e causaram esse problema. Aí eu acho, igual eu já citei várias vezes, que é necessário, então, que seja mudado; que não seja paralisado, mas que seja mudado, porque, infelizmente — ou felizmente —, nós dependemos da mineração, porque tudo que a gente possui, seja um carro, seja o que for, vem da mineração.
17:44
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O SR. IGOR TIMO (PODE - MG) - Elias — só para acrescentar um detalhe, Deputado Rogério Correia —, vocês também recebem participação nos lucros da Vale?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Sim, recebemos.
O SR. IGOR TIMO (PODE - MG) - Dentro dessa linha, em algum momento, algum superior já colocou para vocês metas que supostamente poderiam comprometer algum trabalho?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Não, nunca. Não existe isso aí, não, jamais. É lógico que a empresa, que qualquer empresa trabalha com lucro. Então, a empresa não vai querer que você vá para lá para ficar ocioso. Você vai receber, mas você tem que dar a sua produção na empresa.
O SR. IGOR TIMO (PODE - MG) - Certíssimo.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Elias, eu agradeço. Você tem razão, não é jogar fora o trabalho. É claro que se deve modificar.
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - É porque, quando você fala... têm pessoas que falam: "Ah, a Vale não vale nada". Mas a Vale sou eu, é ele, é o outro menino que estava aqui. Nós somos a Vale. Se o senhor falar que a Vale não vale nada, está falando que eu não valho nada. Então, têm pessoas e pessoas. Têm pessoas que trabalham certo e têm pessoas que trabalham errado. Então, o que precisa tirar são essas pessoas que trabalham errado. Se têm pessoas que trabalham errado, então, elas precisam sair do processo.
O SR. IGOR TIMO (PODE - MG) - Dentro dessa visão como funcionários da Vale — eu estou percebendo que você, Elias, é um cara bem orientado nesse sentido, assim como o Marco e até o próprio Fernando —, onde vocês entendem que houve falhas nesse sistema da Vale? Trabalhando lá dentro, enxergando de dentro, qual é a visão?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - O próprio rompimento deixa claro que houve falha. Se houve o rompimento é porque houve falha. É como falaram: barragem não rompe do dia para a noite.
O SR. IGOR TIMO (PODE - MG) - Pois é, mas onde vocês enxergam? Qual o departamento que vocês, dentro da Vale, teriam a esperança de que, caso houvesse um rompimento como esse, estartaria as medidas de segurança necessárias?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Realmente, seria o setor responsável por barragem. No caso, seria o setor responsável por barragem. Agora, você julgar a empresa inteira por um setor, por exemplo, o setor responsável por barragem...
O SR. IGOR TIMO (PODE - MG) - Não, eu estou só perguntando para saber realmente onde consiste o problema.
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Realmente, seria na área, nas pessoas que eram responsáveis por esse trabalho, porque sempre existiu essa equipe que trabalhava com barragem. Então, a falha houve.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Deputado, permita-me um aparte, para eu perguntar para ele, porque acho que fica mais compreensível. Essa barragem que se rompeu, assim como a de Mariana, era barragem a montante, como vocês sabem. Essa barragem a montante, você teria coragem de almoçar debaixo de uma barragem a montante hoje?
17:48
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O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Hoje, não. Hoje eu falo para você que, hoje, não. Hoje, por qualquer barragem que eu passar, seja de água, seja de rejeito, hoje eu não teria coragem. Mas essa nossa lá, eu teria coragem, porque eu não conhecia o risco. Então, para mim...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Não sabia, não tinha ainda acontecido.
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Não tinha acontecido. Então, para mim, ela era segura, completamente segura. Eu passava no pé dessa barragem três, quatro vezes por dia. Eu tinha...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Hoje, você não faria isso de jeito nenhum.
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Hoje, sabendo dessa situação, eu...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Você já escapuliu de uma, não é?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Nessa situação hoje, eu não passaria mais.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Duas vezes...
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Tipo assim, o risco está ali, mas quando você não tem noção desse risco...
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Ou seja, é preciso minerar, mas não com barragem a montante, não com barragem que tenha risco. Não pode ser...
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - É necessário que mude o método.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Não pode ser só a fome do lucro. Tem que ter mais cuidado com a segurança, mais cuidado...
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - É porque essa barragem é uma barragem antiga. Então, ela foi construída no método antigo.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - E mesmo a barragem em si, hoje não se usa mais. Hoje, já se faz mais mineração a seco do que com barragem. Então, é óbvio, nós estamos falando disso é no sentido mesmo de ter correção, não é no sentido de acabar com uma atividade, que, se for feita com cuidado, com segurança, ela é útil para produzir o aço, produzir coisas que nós precisamos. Agora, só para mandar minério para fora do Brasil e enriquecer meia dúzia, isso mostrou que não pode continuar ocorrendo, porque não se tem responsabilidade nem com o País nem com os trabalhadores, não é?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - É verdade.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Bem, uma última pergunta: vocês são de Brumadinho, moram em Brumadinho?
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - Eu sou de Mário Campos.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Mário Campos.
O SR. ELIAS DE JESUS NUNES - É comunidade vizinha a Brumadinho.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - Por falar em Mário Campos, deixe eu mandar aqui um abraço meu, da Deputada Áurea, do Deputado Igor, do Deputado Janones, do...
(Intervenção fora do microfone.)
O SR. IGOR TIMO (PODE - MG) - Hercílio.
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - ...do Deputado Hercílio — e o Deputado Júlio já mandou o abraço —, enfim, mandar um abraço para a Andresa, que é de Mário Campos, nossa Vereadora, e dizer para ela ficar firme lá, porque o juiz tomou a decisão de suspender o processo que tinham contra ela. Um absurdo, não é? Uma Vereadora séria, e eles queriam cassar o mandato dela lá na Câmara. Felizmente, o juiz deu uma liminar favorável, e a nossa Andresa está firme e forte por lá. Vamos mandar um abraço para ela.
Você é de Mário Campos. E você, é de Brumadinho?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Eu sou do Tijuco, que é do lado de Córrego do Feijão, onde houve o escape para que toda a logística fosse feita, para socorro, para polícia, para tudo. Então, a gente é vizinho lá. Hoje até falam que para ir na Vale tem que passar no Tijuco. Eu sou de lá, do Tijuco, sou de Brumadinho, vivo de mineração, sempre quis trabalhar em mineração. Era até um sonho para mim entrar na Vale, por causa de... eu tinha um objetivo, e foi alcançado. Durante um tempo... Eu demorei muito tempo para entrar, porque eu tenho uma perda auditiva, eu não escuto do lado direito, e a empresa não me contratava. Então, chegou um momento que eu consegui entrar. Foram muitos anos que eu tentei. Então, foi... Já começou com milagre eu entrar lá, por exemplo, porque eu chegava no médico, o médico falava: "Eu vou colocar você, depois eu vou te tirar, e eu não vou poder trocar você de área". E hoje eu falo que eu já trabalhei em várias áreas. Assim, sou muito grato à Vale. Como eu disse, eu não tenho medo de sair, mas sou profissional e, para me mandar, tem que ter justificativa. Então, que seja de grande valor o que a gente falou aqui, porque é verdade. E como a gente não lembra de tudo, se a gente vier a lembrar, e me for perguntado, eu creio que a verdade será dita, porque eu sempre comento: doa a quem doer, doa em mim, mas que você diga a verdade, morra pela verdade. Então, eu agradeço também por estar aqui e contribuir para que seja...
17:52
RF
O SR. ROGÉRIO CORREIA (PT - MG) - A pergunta que eu ia fazer era mais ou menos nesse sentido mesmo. Vocês são de lá. Como é que está a situação hoje lá? Porque vocês sofreram com a questão do rompimento da barragem, e com certeza a cidade está sofrendo muitas consequências, não é? Como é que vocês veem essas consequências lá, hoje, tanto em Brumadinho, quanto em Mário Campos? É a última pergunta que eu queria fazer para vocês, para se posicionarem também sobre as consequências do rompimento para os Municípios.
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - A maior consequência é a desinformação, porque chega para a população... As pessoas que estão querendo se aproveitar da situação — eu posso falar disso com propriedade — atrapalham as pessoas honestas, de a Vale chegar até elas, para atendê-las. O que mais está atrapalhando a população é a questão psicológica. É coisa antiga, que está voltando através da barragem. Ontem mesmo eu passei lá — como eu trabalho na Vale; continuo trabalhando —, foram umas três pessoas, e brincaram comigo: "Vale, assassina!" É como o Elias falou: eu sou Vale, mas eu não sou assassino. Então, funcionários que estão ali, têm pessoas que estão trabalhando, que são gerentes, que são corretos, que se afastaram, porque estão tentando resolver o problema das pessoas, e os oportunistas atrapalhando. Eu estou falando aqui em rede nacional, para que, na hora em que o oportunista vier, ele saber que o Brasil está de olho nele; e que uma hora vai acontecer de tudo chegar no lugar. E a questão da população, Rogério, que ganhou esses mil reais, esses mil reais estão tirando as pessoas do trabalho. As pessoas não estão conseguindo arrumar emprego por causa dos mil reais que a empresa está dando. Costumam até brincar lá que o menino ainda nem nasceu, já está fichado na Vale, porque a esposa está grávida, alguma coisa assim. Então, gerou-se um movimento em cima disso. Que seja uma renda, mas que seja vista com outros olhos lá por Brumadinho, porque as pessoas estão se acomodando, achando que aquilo vai ser para o resto da vida, e estão se esquecendo que vai acabar o ano, e estão querendo só sugar. Não estou defendendo a Vale, não, mas estão querendo sugar. A minha mãe — ela já é de idade — brinca: "Eu tenho dó da Vale". Mas, assim: "Mãe, não precisa ter dó, não; a empresa, ela vai pagar todo mundo aí; ela é correta". Mas o que eu estou vendo é que a discussão está em torno de ganhar dinheiro. Se eu tiver dinheiro, aí é que eu quero. Mas o psicológico das pessoas está trazendo uma coisa antiga, igual à questão de trabalho. Eu não acho, por exemplo, que as pessoas que estão trabalhando lá dentro estão tendo problemas psicológicos por causa das pessoas que morreram, mas por causa de coisas, da pressão, como eu falei. Eu mesmo punha pressão em cima de mim mesmo para que eu fizesse tudo correto. Ele falou que a empresa é chata, mas você se acostuma com aquilo. Você se acostuma a trabalhar corretamente e quer fazer correto o tempo todo.
17:56
RF
O SR. HERCÍLIO COELHO DINIZ (Bloco/MDB - MG) - Sobre este assunto de que você está falando, se me permite, vou dar um depoimento do que eu presencial lá.
Eu estive lá agora, na sexta-feira passada, e o Ministro foi lá para inaugurar a Estação da Cidadania. Várias empresas fizeram um diagnóstico de Brumadinho para saber sobre a depressão econômica, para reinventar e fazer a economia movimentar. Você está falando assim e existem alguns aspectos em que a comunidade precisará de algum acompanhamento, algum cuidado.
Segundo dados, 700 jovens de lá — dizem que são os nem-nem — nem estudam nem trabalham. Portanto, para estes jovens estão sendo disponibilizados cursos de formação, para poderem abrir uma empresa, para terem capital de giro, e poderem iniciar uma atividade. Está sendo ofertado um leque de produtos. A AMBEV e várias empresas estão participando deste projeto. Estavam presentes o SEBRAE, o SENAC, o SENAI, as carreiras de serviço e de formação profissional.
O Ministro Osmar Terra esteve inaugurando a Estação Cidadania. O Ministro Marcelo, do Turismo, também esteve presente. Há, portanto, um sem-número de projetos. Não se trata de querer tirar proveito de uma situação dessas. Uma tragédia de enormes dimensões aconteceu, ninguém gostaria que acontecesse, mas a cidade tem uma oportunidade muito grande para agora depender menos da mineração.
Você falou da indústria de indenização — todo mundo, até o filho que vai nascer, todos já estão na Vale. Eu ouvi um comentário. Eu peguei um veículo para me transportar para lá. Nem era táxi — um veículo me transportou. O motorista fez o seguinte comentário: "Eu moro aqui há 40 anos e nunca vi um índio aqui. Até índio tem aqui agora". Ele me mostrou algumas invasões, entre outras coisas.
Parece que está havendo alguma indústria lá também, alguma coisa para se tirar algum proveito da situação. É natural que isso aconteça. Em todo lugar há aproveitadores. O importante é saber harmonizar e equilibrar isso, para que a cidade tenha de fato novas atividades econômicas, para a população ter um trabalho e dignidade. Auxílio tem sido dado.
Sobre o Programa Bolsa Família, foi feita uma norma para receberem os dois ao mesmo tempo. A coisa é emergencial, necessária, tem que ser feita. No entanto, é preciso, acima de tudo, qualificar e treinar o pessoal, para que a economia gire sem depender unicamente da mineração.
A SRA. PRESIDENTE (Áurea Carolina. PSOL - MG) - Obrigada, Deputado Hercílio.
Marcão, você concluiu? Deseja fazer um último comentário?
O SR. MARCO ANTONIO RIBEIRO DA SILVA - Meu último comentário é que os funcionários estão com muito medo. Vocês viram o Fernando falar muito e, pelo nervosismo, estava rindo. Mas a situação não é para ficar rindo. Os funcionários falam brincando: "Esquece! Só até o dia 31". Então, eles estão perdendo a credibilidade como profissionais, por causa de situações. Dia 31 acaba? Vai ser mandado embora? Não existe isso. A empresa pode ter a liberdade de mandar embora, mas o que está acontecendo com os funcionários, Rogério, é isso que está na cabeça deles; na minha, não. Eu já disse que para mim está tranquilo, está nas mãos de Deus, mas eles estão falando isso. "Marcão, você tá tranquilo? Só até o dia 31". Então, que seja revista esta questão também! Não se trata de ser obrigado, mas de se elaborar outro trabalho, para que seja postergada esta situação.
18:00
RF
A SRA. PRESIDENTE (Áurea Carolina. PSOL - MG) - Perfeitamente. Nós agradecemos ao Marcão, ao Elias, ao Fernando, que também esteve conosco, bem como aos colegas Deputados.
Quero fazer um registro antes de caminharmos para o encerramento da nossa reunião. Há uma relação muitas vezes conflituosa e ambígua que os funcionários têm com a própria empresa. É claro que é admirável o respeito e a lealdade que vocês têm pela empresa, que lhes possibilita ganhar o pão. A empresa é um espaço de desenvolvimento profissional que vocês valorizam.
No entanto, é muito importante mostrar aqui as discrepâncias que existem entre vocês, trabalhadores que estão na ponta, no chão, que pegam no pesado, que conhecem o cotidiano mais profundo da empresa, e aqueles que estão no alto escalão, tomando decisões muitas vezes sem entender a realidade em que vocês se encontram, passando muitas vezes por cima das necessidades e das vozes de vocês que não são ouvidas como deveriam ser. Eu tenho certeza disso.
Nós vimos, nesta CPI, muitas vezes certo desprezo e desdém por aqueles que estão numa posição hierárquica superior na empresa em relação ao trabalho miúdo de vocês. Vocês podem verificar isso nas gravações que nós temos de todas as reuniões feitas por esta CPI.
Portanto, é muito importante, sim, a Vale à responsabilidade, inclusive como grande corporação internacional que detém um poder econômico e político que jamais pode ser igualado à relação de trabalho que vocês têm, com todo o respeito e deferência que vocês têm à própria empresa.
Esta empresa tem uma responsabilidade por esses crimes. Vocês são a Vale, mas não têm responsabilidade criminosa. Estas coisas não podem ser misturadas: têm que haver muito discernimento. Não se trata de responsabilidades individuais de pessoas que falharam no processo. Trata-se de uma cadeia de comando muito bem articulada, planejada, premeditada, como está sendo confirmado a cada sessão que temos aqui, Deputado Igor Timo. Trata-se de um crime premeditado porque, com muita antecedência, já se sabia de todos os riscos que havia em relação à ameaça de rompimento da barragem. A Vale, por sua vez, ocultou informações e operou de maneira controversa neste processo, e deu no que deu.
Sabemos, é claro, que existe o momento de reconhecer a entrega de vida, de trabalho, mas sabemos a hora de chamar à responsabilidade e entender que uma comunidade atingida, como você, que é do Tejuco, jamais pode ser igualada como parte da Vale desta maneira.
A Vale ocupa vários territórios, explora e deixa muita destruição. É claro que pode deixar algum benefício, mas o que tem pesado neste momento é o fato de que a destruição supera o benefício. O que queremos é virar esta balança. Nós queremos reequilibrar este modelo, para alcançarmos uma mineração responsável, com contrapartida social, com respeito ao meio ambiente e à vida, para entendermos que é possível fazer uma economia de transição e sair da minerodependência, destas questões graves que discutimos aqui.
18:04
RF
A população de Brumadinho não teria, de uma hora para outra, condições de lidar da melhor maneira com esta renda que chega, que não é favor nenhum, que não é sugada da Vale. A Vale não tem nada de coitadinha nesta história! É dever da Vale reparar mínima e financeiramente essas pessoas, para que elas possam sobreviver.
O SR. IGOR TIMO (PODE - MG) - É preciso deixar claro, Deputada Áurea, que indenização não significa benefício. Indenização é uma reparação. É importante que isso fique bem claro. Trata-se de uma questão legal.
A SRA. PRESIDENTE (Áurea Carolina. PSOL - MG) - Exatamente.
Nós não podemos culpar os moradores por ainda não terem condições de fazer o melhor uso ou a melhor gestão financeira deste recurso, porque este contexto envolve muitas fragilidades e muitas vulnerabilidades. Como o Deputado Hercílio mencionou, são necessárias políticas públicas em todas as áreas, para que esta renda signifique, de fato, algo positivo, algo não imediatista para aquelas comunidades.
Deputado Hercílio, a retomada indígena que existe ali, que muitas pessoas não conheciam, faz parte de uma luta ancestral do território. Tenho certeza de que existem muitos Brumadinhos dentro da mesma cidade, assim como existem muitas cidades e muitos países dentro do Brasil que nós desconhecemos. O fato de haver uma história anterior, de que as pessoas nunca tinham ouvido falar, não quer dizer que aquela luta não seja legítima ou que ela não tenha sua importância.
Eu acho que nós precisamos trazer, com todo o valor, as realidades diversas que estão vindo à tona a partir deste gravíssimo crime, deste conflito que ainda vai se desdobrar muito mais.
Nada mais havendo a tratar, vou encerrar nossos trabalhos, antes convocando reunião desta Comissão para o dia 25 de junho, próxima terça-feira, para as 14h30min, para audiência pública e a deliberação de requerimentos.
Está encerrada a presente reunião.
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